DECORAÇÃO

A história da decoração em Belo Horizonte passa por aqui

A lojista Vênica Lima, uma das precursoras do setor, alcança uma nova realização à frente do programa que apresenta no Youtube, a Casa Viva.

Quem quer encontrar objetos de decoração, peças assinadas ou qualquer produto de design tem, à mão, um leque de opções que vão, desde lojas de pequeno e grande porte, localizadas em bairros nobres ou centros comerciais, até shoppings inteiros dedicados à arquitetura de interiores. Nem sempre foi assim. Esse tipo de estabelecimento começou a florescer nas grandes cidades brasileiras na década de 1990. Antes disso, essa tarefa era bem mais difícil.

Em Belo Horizonte, entre os nomes precursores na área está o da empresária Vênica Lima. Em 1989, sua loja era bem pequena, destinada a vender os tapetes de tear que ela mesma fazia. Apaixonada por decoração e arquitetura, Vênica também produziu para as poucas lojas que existiam até então, desenvolvendo linhas de móveis de ferro e pedra que criava a partir de uma receita que envolvia pesquisa de referências e a sua aptidão, com a qual dava o toque pessoal ao que fazia. Nesse primeiro momento, ela ampliou a clientela, vendendo também para lojistas de São Paulo.

Foi em 1993 que resolveu ter seu próprio endereço, no tradicional bairro Serra, na capital mineira, um pequeno espaço na rua Herval. Pouco tempo depois, estava de mudança para a rua do Ouro, no mesmo bairro, onde consolidou a loja que leva seu nome e que, certamente, está atrelada à história da decoração e da arquitetura de interiores em BH, desde quando ela ainda engatinhava.

Vênica Lima (foto João Elias)

“O mercado é sempre uma caixinha de surpresas, tivemos várias crises em momentos muito delicados, mas estive sempre em um momento crescente”, lembra Vênica. Além de não ter um volume de concorrência expressivo, a empresária sempre foi reconhecida no meio pela curadoria do que oferece em sua loja, entre móveis, objetos e adornos. Embora não tenha concluído o curso técnico de decoração, que iniciou no Inap – Instituto de Arte e Projeto, que se destaca como referência no segmento – seu envolvimento com o tema sempre foi grande. “Desisti do curso quando fiquei grávida, mas posso dizer que respiro decoração 24 horas por dia. Além disso, sempre tive muitas oportunidades de viajar, conhecer outros lugares e muitas pessoas interessantes. Tem coisas que você aprende olhando, amadurecendo o olhar. Depois disso, o feeling, aquilo que orienta a direção a seguir, esse vai se desenvolvendo com o tempo”, analisa.

A partir de 2010, a Vênica Casa começou a sentir os revezes do mercado com uma nova nuance: “Com a internet funcionando a todo vapor, lojas demais no setor e produtos importados muito pulverizados, começamos a perceber que deveríamos ter um critério redobrado para escolher o que iríamos oferecer ao cliente”, relembra. Nada, entretanto, que ameaçasse o negócio ou mesmo a vontade da empresária de continuar a desenvolver um trabalho de ponta em BH. Tanto que, em 2013, buscando novas alternativas, ela inaugurou, junto com o filho, mais um endereço comercial, o Espaço 670.

A proposta, uma loja-galeria com trabalhos autorais de designers brasileiros e que priorizava o feito à mão, impactou positivamente o mercado, mesmo que isso não tenha significado um sucesso iminente nas vendas. Mais uma vez, Vênica estava à frente, ocupando um espaço que iria florescer no mercado nacional algum tempo depois, mas que, naquele momento, foi absorvido muito lentamente, por um consumidor ainda acomodado com o tradicional. Três anos depois, o Espaço fechou as portas, mas sua ideia permanece viva. Ele hoje funciona no segundo piso da Vênica Casa. “Não temos mais o acervo de antes, mas continuamos com a mesma proposta conceitual lá do início”, diz.

Vênica Lima (foto João Elias)

Com a nova realidade advinda dos tempos da pandemia causada pelo Covid 19 e as restrições sociais impostas sob o selo de uma quarentena, Vênica se vê, hoje, trabalhando como quando iniciou sua história profissional. “Atualmente tenho feito de tudo na loja, até mesmo as entregas” comenta. O negócio também se tornou online para se a adaptar ao momento, com Whatsapp e Instagram funcionando em ritmo acelerado e uma peça a mais que se encaixou nesse quebra-cabeças com perfeição: o programa Casa Viva que ela tem no Youtube desde o ano passado, que já contabiliza até o momento mais de 20 edições.

“Eu percebi que tinha condições de fazer um programa que mostrasse como as pessoas vivem e assim abordasse todos os universos da decoração. Não é todo mundo que tem uma casa com sofá combinando com um quadro e é isso que eu gosto de mostrar no Casa Viva: ambientes com personalidade. Com esse programa estou conhecendo pessoas fantásticas, cheias de opinião e já nem sei se gosto mais das casas ou das pessoas que nelas moram”, diverte-se.

O que mudou depois da quarentena é que, agora, as visitas são virtuais. E assim, como são virtuais, Vênica tem aproveitado para romper fronteiras sem sair de casa. Já fez programa em Sabará, sua cidade natal, em Angra dos Reis, nos Estados Unidos e o próximo será na Europa. “O Casa Viva tem sido o suprassumo da realização. É muito prazeroso, ultrapassa todas as barreiras do que estamos vivendo hoje e me dá muita satisfação fazê-lo. O que estou aprendendo não tenho nem palavras. Estou percebendo as pessoas, conhecendo mais as cidades, vendo como as pessoas consomem, como elas vivem. Os ganhos são todos. Estou muito feliz, além de ser algo que reforça a minha personalidade”, destaca. Para ela, agora, é um dia de cada vez. “Temos que ficar vivos e atentos”, ensina.

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