FIGURINISTA

Arquitetura do Movimento

A arquiteta Freusa Zechmeister é o nome por trás de praticamente todos os figurinos do Grupo Corpo desde os anos 80

Durante qualquer conversa rápida com Freusa, você logo percebe que essa mulher inteligentíssima, que se declara fascinada pelas décadas de 30 e 40, que pode ser vista circulando por aí com uma elegância ímpar, com suas camisas bem cortadas e saias justas compridas. Os tons predominantes variam apenas entre os tons de preto e branco, embora também tenha um apreço especial pelo amarelo, que pode aparecer em algum complemento do look, mas a combinação do branco e preto tem realmente um lugar especial no seu dia a dia. Ela é dessas pessoas que escolheram carregar as cores na alma. De riso fácil, é capaz de contagiar qualquer pessoa com as gargalhadas mais gostosas. Freusa sabe colorir os outros como ninguém, mas prefere não se arriscar a ser uma alegoria de seu trabalho como figurista de um dos grupos de dança mais reverenciados em todo o mundo e, é nesse  divertido jogo do preto com o branco que ela consegue se sentir à vontade para expressar toda a sua criatividade. Talvez seja esse seu amuleto de sorte. Ou apenas uma tentativa de não tentar aparecer mais que seu próprio trabalho. Completamente avessa a entrevistas, é possível contar nos dedos as vezes em que ela aparece em algum veículo de imprensa para falar sobre seus trabalhos. Como boa mineira, acha “jeca” falar de si mesmo ou de algo que tenha feito profissionalmente, mas não esconde possuir um enorme orgulho de sua trajetória e de tudo que ela proporciona. A única certeza é que o talento e o carisma dessa mulher merecem ser conhecidos e reconhecidos por todos. E é por este motivo que ela está nesta edição da Abreu!

Divulgação
Freusa Zechmeister

Um desses raros momentos em que Freusa pode ser vista na televisão falando do seu trabalho como arquiteta é um registro para o programa Casa Brasileira, sob a direção do experiente Alberto Renault, exibido pelo GNT. É difícil explicar essa resistência que ela tem com os holofotes porque a qualquer aproximação, nota-se que ela é uma pessoa extremante acolhedora e muito divertida. O fato é que Freusa é uma exímia contadora de casos. Ela conta histórias de jeito muito particular, extremamente envolvente. Sua perspicácia e naturalidade são tão cativantes que qualquer pessoa que a escute por breves minutos seja pessoalmente ou por telefone, já são suficientes para deixar o interlocutor com vontade de ser amigo(a) dela.

O trabalho de com o Grupo Corpo teve início na década de 80. E o mais curioso é que, na época, ela saiu de BH (cidade natal do Corpo), para conhecer o diretor da companhia durante uma turnê do grupo pela Europa. E na volta para a capital é que apareceu o convite para desenvolverem um trabalho juntos. E desde então nunca mais parou. Aliás, desde que começou, apenas o figurino do espetáculo “Santo Agostinho” não foi assinado por ela e sim por Ronaldo Fraga.

Fotos: Divulgação

Nazareth (1993), com música de Ernesto Nazareth, inspirado na literatura de Machado de Assis

Freusa se define como uma pessoa extremamente visual. Ela se diverte ao confidenciar que é capaz de reformar um restaurante inteiro na sua cabeça enquanto participa de jantar. Por conta dessa sua capacidade aguçada, seu trabalho com a criação e dos figurinos tem início durante os ensaios com os bailarinos e das reuniões aos finais destas apresentações com os coreógrafos e equipe técnica responsáveis pelos ballets. É na plateia, onde ela acompanha as movimentações no palco, que vão surgindo as mais ricas ideias, que servirão para direcionando o desenvolvimento de todo o figurino de cada espetáculo do grupo. No início, chegava a pedir que as bailarinas reproduzissem o movimento em cima de uma mesa montada no ateliê de costura, para que tanto ela quanto as costureiras pudessem compreender melhor os impactos no figurino. Neste sentido, Freusa se coloca como uma espécie de observadora e, de certa forma, viabilizadora do movimento dos bailarinos, despindo-se de qualquer vaidade. “Eu não tenho que vestir bailarino, eu tenho é que permitir que o trabalho deles aconteça e seja percebido da melhor maneira possível, mas em determinados momentos, você pode intensificar aquela intenção do coreógrafo com o figurino”, destaca.

Fotos: Divulgação

Parabelo (1997), com música de Tom Zé e José Miguel Wisnik

Este intenso processo de criação pode ser arrastar por períodos extensos, de muita observação, pesquisas e experimentação. É natural que ela precise fazer leves ajustes ou até mesmo refazer um figurino por completo durante o processo de ensaios em função dos movimentos da coreografia ou até da iluminação criada, que interfere diretamente na forma como o público percebe o espetáculo. E Freusa ressalta que seu trabalho à frente dos figurinos que viajam praticamente por todo o mundo não chega ao fim com a estreia de uma montagem. Ela ainda preserva o hábito de, eventualmente, propor e cuidar das alterações e adaptações em peças de espetáculos mais antigos, mas que ainda continuam no repertório do grupo.

É interessante observar que a Arquitetura e a Moda possuem muitos traços em comum. Talvez o de maior destaque seja o fato de que ambos são responsáveis pela forma, criando uma espécie de abrigo para o ser humano, além do fato de sofrerem influências diretas do tempo, refletindo um determinado período.  Levando este contexto em consideração, fica fácil traçar uma analogia sobre como a arquiteta consegue desempenhar estas duas funções de forma tão brilhante. É preciso lembrar que Freusa nunca abandonou a arquitetura. Pelo contrário, seu escritório é responsável por diversos projetos. Questionada sobre a fonte de tanta inspiração, a resposta vem de forma imediata: “Você aprende a viver vivendo. Eu aprendo a criar, criando”

Fotos: Divulgação

Lecuona (2004), com música de Ernesto Lecuona

De acordo com ela, sua relação com a arquitetura e até com a moda veio a partir da convivência com uma tia, que era uma espécie de colecionadora de revistas e detentora de diversas referências que serviram de inspiração para Freusa desde a infância. Ainda hoje, ela mantém um acervo de recortes de figurinos retirados de uma revista que foi herdada da tia chamada “Vida Doméstica”, muito popular na época.

Fotos: Arquivo pessoal

Apesar de todo esse know-how adquirido ao longo de todos desses 56 anos de carreira, Freusa não se denomina uma figurinista, mas sim uma arquiteta, uma criadora curiosa que usa seus conhecimentos e sua sensibilidade para desenvolver projetos em uma outra plataforma. “Eu não acho que você precisa ser designer de moda para fazer um figurino. Se eu fosse uma figurinista, ia ser outra coisa que o Corpo ia ter”, ressalta.

Foto: Divulgação

Breu (2007), com música de Lenine

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