MATERIAIS SUSTENTÁVEIS

Construções em bambu

Considerado o “aço verde”, o bambu vem ganhando cada vez mais espaço na construção civil

Considerado um dos elementos mais versáteis da natureza, o bambu vem conquistando cada vez mais espaço na construção civil em função das inúmeras possibilidades de uso deste material e do custo bastante acessível. Por conta de sua estrutura oca, ele é bastante resistente ao vento e inclusive é considerado como o “aço verde” da construção uma vez que sua estrutura pode ser comparável ao concreto em termos de compressão e ao aço na resistência à tração. Ele pode aparecer associado a outros materiais como cimento, terra e vidro ou então ser a única matéria-prima utilizada na edificação, substituindo pilastras e vigas.

Renovável e extremamente durável, essa matéria-prima vem caindo no gosto dos construtores e arquitetos em todo o mundo, que estão ampliando cada vez mais as possibilidades experimentação e interação com este material em diversos tipos de construção. Em países como Japão e China, ele já é utilizado há bastante tempo, mas no restante do mundo, podemos dizer que essa relação vem ganhando cada dia mais proximidade com o passar dos anos. Hoje, já é possível encontrar aqui no Brasil casas ou outras edificações inteiramente construídas em bambu.

Fotos: Divulgação

Sustentável e bastante eficiente em termos de economia de energia, o bambu é uma espécie de crescimento muito rápido, se comparado com a madeira. Da família das gramíneas, em apenas 5 anos, ele pode atingir cerca de 25 metros de altura. Algumas espécies inclusive, podem crescer até 1 metro em um único dia. Além disso, é bastante leve, o que facilita a colheita, o manuseio e o transporte. Outro fator interessante é a maleabilidade, permitindo a criação de formas mais orgânicas, incluindo curvaturas. Por conta disso, além de toda a parte estrutural, ele ainda pode ser utilizado na fabricação de portas, janelas, pisos, forros, divisórias, placas e até na produção de mobiliário.

O Cerbambu – Centro de Referência do bambu, localizado no município de Ravena, região metropolitana de Belo Horizonte, existe desde 2009 e é uma espécie de campus dedicado à disseminação de conhecimentos e a formação técnica de pessoas que se interessam em conhecer mais sobre o trabalho com o bambu na construção civil. A instituição estende sua atuação para a comunidade local, capacitando pessoas que vivem na região e estão fora do mercado de trabalho ou em situação de vulnerabilidade social, incluindo a população negra, LGBTQI+, entre outros.

Foto: Netun Lima
Lúcio Ventania, fundador do Cerbambu

O espaço surgiu como consequência ao processo de popularização de uso do bambu no Brasil. Desde 1985, o fundador do Cerbambu, Lúcio Ventania, já ministrava cursos na área. Foi então nessa época que ele recebeu o convite do Governo do Estado de Minas Gerais juntamente com o Sebrae e o Instituto Estadual das Florestas, o IEF para participar da criação de um grande programa de popularização do bambu no estado, voltado principalmente para as áreas rurais. O projeto fez tanto sucesso que acabou sendo levado para outros estados e o trabalho de Lúcio acabou se tornando uma grande referência em todo o Brasil, influenciando a criação de diversas cooperativas em várias partes do país, replicando as técnicas difundidas por ele, inaugurando um movimento que ficou conhecido como bambuzeria brasileira. “Não fui quem escolhi o bambu, mas posso dizer que o bambu que me escolheu. Eu tive uma oportunidade, aos 10 anos de idade, de aprender com um mestre chinês. E depois, com diversos outros, mas o fato é que quando eu tinha 14 anos eu já era um artesão. Já sabia fazer móveis e tinha uma noção muito boa de como substituir com bambu, produtos que originalmente eram feitos de plástico e ferro. E isso foi me dando um certo reconhecimento porque as pessoas entendiam o valor ecológico dessas releituras. E o bambu é uma planta que, além de cumprir com eficiência os pré-requisitos de qualquer material usado na construção de móveis, artesanato e construção civil, ele ainda traz o componente que é do encanto. Além do fator estético, que conta muito para a arquitetura e para o design, eu também enxerguei um valor social neste material”, aponta Lúcio Ventania,  considerado um dos principais representantes do movimento de popularização do uso do bambu no Brasil.

Com a criação do Cerbambu, o mestre investiu na construção de uma grande estrutura, apta a receber essas comunidades, que inclui uma sala de aula em estrutura geodésica com 200m² e pé direito com 8 metros de altura, centro administrativo, restaurante, biblioteca, além de uma área destinada ao cultivo de mais de 20 espécies de bambu e tanques de tratamento.

Fotos: Divulgação

“No quesito sustentabilidade, ele é interessantíssimo porque entre os recursos naturais de porte arbóreo é o bambu que apresenta as maiores taxas de crescimento. Não há nada que cresça mais rápido que o bambu. Além disso, ele tem uma reprodução assexuada, ou seja, ele se reproduz sozinho, sem a necessidade de replantio. É uma planta também que tem um dos melhores rendimentos por metro quadrado. Além disso, o bambu é capaz de reduzir a quantidade de dióxido de carbono do planeta.  Por todos esses motivos, podemos considerá-lo um material revolucionário”, destaca Lúcio Ventania.

De acordo com Lúcio Ventania, o Brasil ainda não dispõe de matéria-prima em volume e condições fitossanitárias suficiente para desenvolvimento de um projeto de construção de habitações em larga escala, mas ele acredita que o bambu possa ser inserido gradativamente na construção civil, diminuindo impactos ambientais. Ele ainda dá uma dica: “Ele pode ser utilizado em formato de forro, substituindo a madeira, PVC ou outros materiais uma vez que é um excelente isolante térmico natural. Por este motivo, é a solução ideal para manter a temperatura agradável sob pergolados com cobertura em vidro ou em policarbonato. O forro pode ser confeccionado tanto em esteira trançada, como era amplamente utilizado no período colonial ou com o bambu cilíndrico, disposto um ao lado do outro, agregando beleza e conforto aos ambientes”

Cozinha-Escola do Mercado Central de Belo Horizonte, projeto elaborado em 2011 por Fernando Maculan, Marcelo Rosenbaum e Mariza Machado

Além dos espaços do Cerbambu Ravena, o coletivo desenvolve projetos em todo o Brasil em parceria com diversos arquitetos e designers. Entre eles, destaque para a Cozinha-Escola do Mercado Central de Belo Horizonte, projeto elaborado em 2011 por Fernando Maculan, Marcelo Rosenbaum e Mariza Machado. A ideia do trio foi criar uma espécie de malha em linhas diagonais, fazendo referência às fachadas ventiladas do mercado. Transparente, a estrutura de bambu permite ao público que está de fora ver o que acontece dentro do espaço. As hastes foram tratadas, externa e internamente, garantindo que estarão preservadas por mais de 100 anos.

Divulgação

Há também a cobertura para o espaço público dentro do parque ecológico EKôa, na cidade de Morretes, no Paraná, com projeto assinado pelo arquiteto Tomaz Lotufo

Divulgação

Localizada em Visconde de Mauá, no Rio de Janeiro, a Escola de Bioarquitetura e Centro de Pesquisa e Tecnologia Experimental em Bambu, EBIOBAMBU, também é outro espaço criado para a pesquisa e difusão dos conhecimentos acerca do bambu na arquitetura, com inúmeros projetos executados como casas, hotéis, pergolados, stands, bangalôs, entre outros

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