Entrevista: Heloisa Galvão

As criações assinadas por Heloisa Galvão são referência de bom gosto e resultado de uma série de pesquisas desta artista que gosta de estudar e aplica seus conhecimentos na experimentação. As peças em porcelana líquida assinadas por ela são carregadas de uma delicadeza ímpar, que se tornou a principal marca da artista que iniciou sua carreira na fotografia e se encantou pelas possibilidades da cerâmica de captar instantes, como num clique.

Cassiana Der Haroutiounian
Heloisa Galvão

É impossível apreciar o trabalho de Heloisa Galvão sem se questionar: Como alguém consegue fazer isso? A pergunta certamente ecoa na cabeça de todas as pessoas que já tiveram a oportunidade de chegar perto de qualquer uma de suas peças, moldadas com maestria e muita delicadeza. Ela é capaz de imprimir leveza até nos materiais mais brutos, densos e inusitados. Você certamente nunca viu nada parecido ou algo que já remetesse ao trabalho dela. Pelo contrário, a artista imprimiu uma identidade muito forte nas suas peças e seu traço é praticamente inconfundível, reflexo de anos de muita pesquisa e experimentação.

Fotos: Divulgação

O fato é que, desde pequena, Heloisa já sabia que seria artista. Criada em um sítio, no interior do Espírito Santo, teve contato com a terra e com a natureza desde a primeira infância. Portanto essa conexão com elementos naturais nunca foi assim uma novidade na sua vida. E essa relação com certeza influenciou na sua escolha pela profissão que a consagrou como uma das maiores criadoras brasileiras contemporâneas. Mas o sucesso não veio por acaso. Heloisa se preparou (e muito bem por sinal!) para isso. Formada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo, iniciou sua carreira na fotografia, mais precisamente a partir de uma pesquisa sobre processos históricos como Albumen, Van Dick Brown e Cianotipia. O contato com a cerâmica se deu anos mais tarde quando buscou experimentar um material que resultasse possibilidades imagéticas tridimensionais. Acabou se apaixonando pela técnica, principalmente quando percebeu que poderia aplicar ali seus conhecimentos em fotografia. O ateliê em Vila Velha funcionou por 7 anos até o dia que precisou seguir para São Paulo para fazer o mestrado em Poéticas Visuais, na USP. Esse foi o incentivo para instalar seu estúdio-ateliê na capital paulista, na Vila Madalena. E a mudança da sua produção para maior metrópole da América Latina também marca o início do processo de trabalho com a porcelana líquida. Em 2010, Heloisa ingressa no Ceramics Program, da Universidade de Harvard e de volta para o Brasil retoma sua pesquisa com imagens fotográficas sobre cerâmica, o que já rendeu algumas séries de trabalhos.

Heloisa enxerga as peças como uma espécie de suporte onde ela vai aplicando suas pesquisas. O diferencial do seu trabalho está na perfeição das formas orgânicas e a sua assinatura, está no movimento que ela cria para manter as gotas nas peças como se a porcelana ainda estivesse escorrendo pelas bordas. O que poderia parecer uma imperfeição é na verdade o seu toque mais perfeito. Dessa forma, cada peça produzida por ela é única. Não existe reprodução em série. Cada uma sai do seu jeito, com uma personalidade diferente. E a beleza está justamente nisso. Outra marca evidente é a aspereza do lado externa da porcelana. O esmalte transparente só aparece na parte interna, garantir a impermeabilização necessária para que possa ser usada como utilitário.

A seguir, a entrevista com Heloísa Galvão.

Você é uma capixaba que cresceu em um sítio, possui uma forte conexão com a terra e seu trabalho remete às nossas origens uma vez que parte de técnicas milenares para a construção de suas peças. Como essa mudança para São Paulo influencia no seu trabalho? 

Essa forte conexão com a natureza é muito presente no meu trabalho. Trabalhar com a terra me ajuda a resgatá-la em todos os processos. Cada lugar traz suas influências sobre nós. São Paulo me trouxe diálogos. Num primeiro momento acadêmicos, durante meu mestrado. Depois diálogos com outros artistas, designers, público e mercado. Uma das coisas mais importantes que aprendi no período de estudos em Boston (Harvard) foi me aprofundar no meu próprio trabalho e lidar com ele de uma forma mais focada e profissional. De volta a São Paulo reiniciei meu estúdio com mais foco. Acho que São Paulo propicia essa energia de construção.

Fotos: Divulgação

Você sempre quis ser artista. De que forma foi se preparando para isso? E de forma se mantém atualizada? 

Eu fiz faculdade de Artes Plásticas na Federal do Espírito Santo, e tive um estúdio de cerâmica em Vila Velha por sete anos. Foi um momento de muita pesquisa e onde aprendi as especificidades dessa matéria. Cerâmica se aprende experimentando, com a mão na terra. Depois fiz meu mestrado em poéticas visuais na Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi nesse período que iniciei minhas pesquisas com porcelana, desenvolvi uma porcelana translúcida que foi meio para a construção de um conjunto de obras que resultaram na minha dissertação “a terra e a construção de uma poética da leveza”. Em 2010 passei o ano estudando no estúdio de cerâmica da Harvard University. Gosto muito de estudar e pesquisar. Meu trabalho é muito parte da minha vida, é a forma como eu me expresso, como converso com o mundo. Então, tudo é pesquisa: os livros que leio, as viagens que faço, minhas imersões na natureza e em mim mesma, tudo isso me inspira e faz parte da construção da minha poética.

Uma das coisas mais importantes que aprendi no período de estudos em Boston (Harvard) foi me aprofundar no meu próprio trabalho e lidar com ele de uma forma mais focada e profissional

Você começou na fotografia. Você acha que seu apuro estético e seu olhar foram formados a partir da fotografia? 

Desde sempre me interessei pela matéria. Minha paixão pela fotografia era manipular a matéria e assistir a imagem nascendo a partir dela. Isso me levou a pesquisar o início da fotografia e os processos de sensibilização de suportes, que acabaram me levando até a cerâmica, como uma possível superfície para considerar a fotografia no espaço tridimensional, como um corpo no espaço.

Trabalhar com fotografia me trouxe várias experiências importantes, desde desenvolver uma precisão técnica dentro do laboratório fotográfico até esse exercício delicioso do olhar. Desde criança me via fazendo recortes imaginários do espaço. Isso ainda é muito presente para mim hoje, esse olhar sobre a relação que os objetos estabelecem entre si.

É muito interessante porque, para mim, a fotografia sempre foi em preto e branco. A minha relação com a cor é mais recente. Ainda me impressiona desenvolver as cores na porcelana e vê-las nascendo após a queima, trazendo um novo conjunto de relações para a paleta. Cada cor que nasce modifica todo o conjunto. É muito bonito assistir esses diálogos.

Fotos: Divulgação

Imagino que você se inspire de várias formas para a sua criação, mas existe algo que te motive ainda mais de alguma forma a se debruçar no fazer artístico? 

Acho que o que mais me motiva nesse processo constante é seguir meus impulsos, às vezes aparentemente desconexos e depois ver como tudo faz sentido e se entrelaça. Entendi que meu trabalho vem sendo construído a partir da observação do comportamento dessa grande potência que é matéria e da minha profunda relação com ela. Exploro a potência da matéria pura e suas possibilidades construtivas. Ora me aproprio dos seus movimentos espontâneos, construindo objetos fluidos, ora busco os diálogos possíveis entre a leveza e peso, como na série sólidos, onde apreendo a forma das pedras naturais, reconstruindo-as em porcelana. 

Fotos: Divulgação

A delicadeza é uma marca constante no seu trabalho. Você considera isso uma característica ou foi resultado de uma busca/pesquisa artística? 

Trabalho com uma matéria bruta, que tende ao peso, buscando extrair dela leveza e quase imaterialidade. Essas relações são uma constante em meu trabalho. Essa observação da matéria em suas forças e fragilidades.  A delicadeza me chama muito atenção, mas o bruto também. A série prismas, que construí a partir dos cristais de quartzo, revela essa brutalidade própria dos materiais naturais.

Fotos: Divulgação

Quais são os artistas contemporâneos que te atraem atualmente

Nobuo Sekine, um artista japonês incrível, que, segundo ele, cria estruturas o mais simples possíveis que expressam múltiplas ideias. Sekine acredita que seu trabalho é transmitir a riqueza da natureza para os espectadores. Atualmente tem me chamado muito atenção Richard Serra e sua relação com o espaço, Hilal Sami Hilal e sua relação com a matéria e Edith Derdyk, com seus trabalhos e sua escrita. 

Por toda a sua trajetória, fica evidente que você é uma pessoa muito determinada. Onde seu trabalho ainda não chegou, mas que você gostaria muito que ele chegasse um dia? 

Nos últimos anos voltei muito minha atenção para o design, acredito que sempre com um olhar de quem vem das artes visuais. Estou muito feliz com esse caminho que o meu trabalho tomou. Consegui reunir uma equipe afinada e apaixonada pelo que faz. Isso é uma grande realização para mim. Agora tenho retomado minha pesquisa em artes visuais, que é uma pesquisa um pouco mais solitária e silenciosa. Quero ir onde ela me levar.

Esse período de isolamento foi uma grande oportunidade para desacelerar, silenciar e buscar maior contato com a natureza. Parece um recomeço

Como tem sido sua criação nesse período de isolamento social?

Esse período de isolamento foi uma grande oportunidade para desacelerar, silenciar e buscar maior contato com a natureza. Parece um recomeço. 

Seu ateliê é aberto a visitação?

Normalmente sim, com agendamento. Durante a pandemia estamos restringindo bastante, para a proteção de nossa equipe e dos nossos clientes.

Você ainda ministra cursos e workhops para quem quiser aprender as técnicas da porcelana líquida? 

No momento estou muito focada na minha pesquisa e produção do estúdio. Não tenho encontrado tempo para os cursos, apesar de ser algo que gosto muito.

Fotos: Divulgação

ESTÚDIO HELOISA GALVÃO

Rua Simão Álvares, 920 – Pinheiros – São Paulo – SP

Rolar para cima