DESIGN DE MÓVEIS

O tempo, a cultura e a memória

A relevância do legado de Jorge Zalszupin, o homem que fez uma verdadeira revolução no design brasileiro

Eu poderia começar dizendo que o país fica mais pobre em relação à produção de design, mesmo porque o Jorge ainda era atuante e continuou a fazer peças muito incríveis ao longo de todo esse processo dele, dos anos 1950, quando chegou ao Brasil, até os dias de hoje. Mas, nos dias de hoje, acho que não cabe falar essa coisa de perdas irreparáveis.

Na verdade, é a relevância do um trabalho de uma pessoa que, no meu ponto de vista, é o maior designer brasileiro que tivemos. Zalszupin não era brasileiro de origem, já que ele era um polonês que sofreu as questões inerentes ao processo da Segunda Grande Guerra, escapou do holocausto ao se exilar na Romênia, onde cursou arquitetura, trabalhou durante um tempo na reconstrução de alguns edifícios na França e veio para o Brasil em 1949.

Foto: Gui Gaia
Jorge Zalszupin

Aqui, ele se deparou com uma realidade totalmente diferente da que conhecia, mas, ao mesmo tempo, pode entender que o Brasil estava em um processo de reorganização de identidade, onde o jeito brasileiro de ser estava sendo fortalecido a cada dia, inclusive com as propostas de Juscelino Kubitscheck para a arquitetura: tanto na construção de Brasília, como no recém-inaugurado Conjunto Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte.

O que a gente pode perceber é que Zalszupin foi uma pessoa que tomou o Brasil como um país de si mesmo. Ele não esqueceu suas estruturas originais, mas ao mesmo tempo, sempre entendeu onde estava. Ele foi capaz de fazer uma verdadeira revolução no design brasileiro pela sua elegância, pela sua capacidade de compreensão dos materiais disponíveis no país, pelo entendimento das propostas culturais e pela compreensão do tempo ao qual ele estava produzindo. Ele sempre partiu dessa estrutura, que é bem característica do movimento moderno e que se adapta cada vez mais às questões de inspiração na natureza brasileira.

Fotos: Fernando Laszlo

Em uma de suas obras primas, o carrinho de chá, Zalszupin se inspirou nos carrinhos de bebê de quando ele era criança, na Polônia, mas deu toda uma estrutura de forma, já em um organicismo mais acentuado, que fazia parte do ambiente ao qual ele estava inserido. Assim, a peça criada para as casas modernas brasileiras, já que as pessoas começavam a ter esse hábito de tomar chá, tinha a bandeira curva na parte superior e a bandeja encaixada com todas as escavações, na inferior.

No final das contas, eu considero o Jorge como a uma figura de um ourives, vamos dizer assim, da produção luxuosa, mas sem grande ostentação do objeto. Até então, era isso o que se preponderava. A simplicidade como ele organizava o pensamento do desenho, as estruturas funcionais e as capacidades produtivas da nossa marcenaria foram muito desenvolvidas e muito estabelecidas em função do trabalho dele.

Fotos: Fernando Laszlo
Carrinho de Chá de Zalszupin, criado em 1959, foi inspirado nos carrinhos de bebê poloneses e se tornou uma peça icônica do designer

Com raízes estabelecidas em Brasília, Athos Bulcão deixou um legado vivo por toda a capital nacional em diversas construções que, em sua maioria, são frutos da parceria com Niemeyer. Na cidade candanga, por exemplo, são inúmeras construções ornamentadas por intervenções de Bulcão, seja por meio da azulejaria ou no desenho de arcos que compõe os projetos curvilíneos que se tornaram assinatura de Niemeyer.

É até difícil citar destaques da obra de Athos em Brasília, uma cidade que emana arte e intervenções por suas planícies e edificações. São trabalhos datados desde os anos 60 e 70, como no interior do Cine Brasília, que conta com um relevo em madeira e um laminado polivinílico que conserva os traços autorais do artista ao mesmo tempo que destoa do trabalho com os azulejos; passando por criações mais recentes da década de 90, como o Painel presente no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek.

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