Ousadia pouca é bobagem

Eles se tornaram referência ao desenvolver um estilo arquitetônico próprio que reúne ousadia, técnica e muita personalidade. Não é à toa que os projetos da Tetro Arquitetura e sintetizam o viver contemporâneo de um jeito único, chamando cada vez mais atenção e conquistando clientes até no exterior

Fundada em meados de 2005 a partir da união de amigos que se conheceram durante o curso de arquitetura na UFMG, a Tetro Arquitetura vem, de um jeito muito singular, conquistando um lugar de destaque no cenário brasileiro por conta de um estilo muito peculiar. Os projetos assinados por Carlos Maia, Débora Mendes, Igor Macedo e sua equipe são marcados pelos traços contemporâneos e também pela ousadia, que acabou se tornando marca registrada do trio. Mas nem sempre foi assim. No início, a empresa se dedicava quase que exclusivamente ao desenvolvimento de projetos corporativos, atendendo empresas como Vale, Petrobras, entre outras. “Neste período, tínhamos uma divisão no escritório. Um ficava mais por conta da área administrativa, outro com a parte de engenharia e o terceiro com a arquitetura. Por conta disso que nossa empresa passou a se chamar Tetro Arquitetura e Engenharia”, destaca um dos sócios, o arquiteto Carlos Maia. Ele diz isso porque, quando foi fundado, o escritório tinha outro nome e contava com a participação de um quarto sócio, o arquiteto Humberto Hermeto, que acabou se desligando e tornando parceiro em outros projetos posteriores.

O fato é que essa vivência na engenharia foi responsável por aperfeiçoar os conhecimentos do trio na área, principalmente na parte estrutural e essa especialização prática foi determinante para definir tanto os rumos do escritório como também pelo know-how que serviu como base para agregar uma certa ousadia estrutural, que acompanha a Tetro até hoje em todos os seus projetos. Ao analisar as obras executadas, é fácil perceber que a obviedade não faz parte da rotina de trabalho dos profissionais da empresa.

De acordo com os sócios, o diferencial deles está na criação de um método próprio de atuação, que leva em consideração as respostas e reações de um projeto arquitetônico frente a fatores como terreno, a interação com a natureza e com o contexto do lugar que aquela construção estará inserida. “O nosso diferencial hoje é certamente o projeto conceitual. São os conceitos que aprendemos, testamos e praticamos na arquitetura que são capazes de gerar uma construção diferente, mais arrojada”, destaca Débora Mendes.

Apesar de toda essa criatividade latente, a guinada no escritório ocorreu graças ao projeto elaborado para o Memorial Minas Gerais Vale, no Circuito Cultural da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. O desafio da equipe foi adaptar o palácio de 1897, ex-sede da Secretaria de Estado da Fazenda em um espaço super tecnológico para abrigar um museu de experiências. E foi em função do sucesso deste trabalho que eles começaram a ser chamados para outros projetos, inclusive residenciais, que hoje formam um portifólio significativo da empresa e segue em crescimento acelerado. Outro marco na carreira da Tetro citado pelos fundadores foi o projeto criado para o Centro de Visitantes do Parque do Rola Moça. Concebido como um objeto pousado sobre o terreno, logo na entrada do parque, o objetivo dos criadores foi interferir o mínimo na topografia, além de tomar partido da vegetação natural do local, destacando a beleza e os recursos naturais da região.

Fotos: Gustavo Xavier

As cores da construção e os materiais utilizados fazem referência às riquezas da região como o solo de canga devido a presença do minério de ferro

Um ponto em comum observado entre todos os projetos da Tetro é a integração da construção com o meio-ambiente. Em grande parte dos casos, e equipe opta por manter árvores e outros elementos naturais, integrando-os ao projeto. É comum perceber casas que abraçam árvores e cursos d’água, preservando a natureza e a diversidade local. “Nessa área residencial, temos um processo que é muito nosso e que envolve a participação direta dos três de uma forma muito singular. Esse processo inclui a construção de maquetes, desenhos à mão livre e vamos criando juntos todo o conceito e identidade do projeto. Para as outras etapas como aprovação nas prefeituras e a elaboração do detalhamento executivo, temos o suporte de uma equipe dentro do escritório que trabalha sob nossa coordenação”, esclarece Igor Macedo.

E seguindo com o objetivo de inovar e surpreender, a equipe trabalha atualmente em um projeto que certamente ficará marcado como um dos mais arrojados na trajetória do escritório. Trata-se de uma casa aérea, que será construída em um condomínio de Lagoa Santa, na região metropolitana da capital mineira. O diferencial é que todos os volumes da construção estarão apoiados em apenas 4 pilares. A sensação é como se a casa estivesse flutuando no ar, a 12 metros de altura do solo, proporcionando uma vista estonteante de toda a região, além de manter o cuidado com a preservação de toda a vegetação rasteira que circunda a construção.

Imagens:Tetro

Seguindo a altura da copa das árvores já existentes no terreno, a construção abraça a vegetação e convida os habitantes a uma sensação única de extrema intimidade com a natureza

Quando questionado sobre as referências, Carlos Maia é enfático: “Normalmente não buscamos uma referência de arquitetura ao iniciarmos um projeto. Ele começa a partir de uma análise minuciosa do lugar para entendermos as possibilidades de criação e os conceitos que iremos trabalhar. É nessa fase que levantamos quais são os valores daquele espaço, o que precisamos ressaltar ou suprimir nele. E a partir deste momento é que talvez possa surgir uma referência capaz de nos orientar, mas é uma questão muito fluida. Ela pode ser um arquiteto, engenheiro, algum elemento industrial ou até mesmo um produto, não necessariamente um projeto”, enquanto acrescenta que o trio possui uma admiração especial pelos projetos dos brasileiros Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, além de inúmeras referências espalhadas pela América Latina e uma proximidade com o trabalho da espanhola RCR Arquitectes, vencedores do prêmio Pritzker Architecture 2017, onde Carlos passou uma pequena temporada.

Apesar de estarem localizados fisicamente em Belo Horizonte, é possível perceber que o trabalho da Tetro vem sendo cada vez mais notado por pessoas em todo o mundo. Atualmente eles possuem projetos residenciais em execuçã no Equador e na Índia, além de propostas em análise em países como Austrália, Turquia Espanha e Uruguai. Na maioria das vezes, os clientes chegam até eles por meio das redes sociais. O livro suíço Villa Design incluiu recentemente A Casa da Laje Inclinada, em uma publicação que reuniu uma seleção de 62 casas deslumbrantes espalhadas pelo mundo. Já o projeto d’A Casa Cipó, chegou a ser considerado pela revista uruguaia Ayd como uma das 100 melhores habitações da América Latina.

Fotos: Jomar Bragança
Foto: Augusto Custódio

Localizada no Município de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, a Casa da Laje Inclinada foi construída como uma espécie de mirante para as montanhas que circundam a região

Fotos: Jomar Bragança

Casa Cipó eleita uma das 100 melhores habitações da América Latina pela revista Ayd

Na trajetória do trio, é possível identificar que cada projeto é na verdade um grande desafio, resultado de pesquisas e experimentações muito particulares. E isso permite aos arquitetos, explorar diversos conceitos e possibilidades até atingir as soluções que apresentam aos clientes em forma de casas, espaços corporativos e instituições. Dessa forma, cada trabalho é também uma oportunidade de não cair no lugar comum, colocando não apenas a criatividade à prova, mas sobretudo todos os conceitos e processos aplicados ao longo de vários anos de carreira. O fato é que eles se anteciparam ao tempo e souberam trazer o futuro para o presente, disseminando que viver na contemporaneidade nada mais é do que estar atento e aberto às mudanças provocadas por um mundo em constante evolução.

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