FESTIVAL INTERNACIONAL DE JARDINS

PAYSAGE DE FEU,

VAZIO S/A

Com abertura oficial programada para início de abril, tudo indicava que o coronavírus adiaria o “Festival des Jardins Chaumont-sur-le-Loire” de 2020 para o ano que vem. Mas para a surpresa dos franceses, o Festival foi inaugurado de supetão no último dia 16 de maio, e entre os jardins da mostra 2020 está o nosso “Piro-Paisagem” feito com árvores do Cerrado!

Com reputação internacional, Chaumont é “o laboratório mundial no âmbito dos jardins e da criação paisagística contemporânea”, e acontece nas dependências de um castelo construído há 500 anos no Vale do Loire, uma região no interior da França tombada pela Unesco e conhecida por seus esplêndidos castelos renascentistas.

Em princípio, nossa equipe teria que estar em Chaumont em março para acompanhar a construção do jardim. Em fevereiro, e depois de uma longuíssima viagem Brasil-França de mais de 9.000 km, os galhos do Cerrado chegaram em Chaumont, ficando à espera das obras no pátio de manobras do castelo. Qual não foi nosso espanto quando recebemos a notícia de que a produção do Chateau montou nosso jardim meio que na surdina, para em seguida anunciar a inauguração com todos os jardins de 2020 já viçosos e adultos.

Fotos: Eric Sander

Segunda maior formação ecológica do Brasil, o Cerrado é uma savana tropical que se espalha pelas áreas mais centrais do Brasil e possui uma área de aproximadamente 1,5 milhão de km² (mais que duas vezes a área da França). Possui cerca de um terço da biodiversidade brasileira, 5% da flora e fauna mundiais e é o nascedouro de águas que formam as três grandes bacias hidrográficas do país (do Araguaia/Tocantins, do São Francisco e do Paraná/Paraguai).

Infelizmente, por ser uma savana tropical vista apenas como o bioma da vegetação pobre e como reserva de expansão para áreas agrícolas, o Cerrado é desamparado em termos de proteção legal. Diferentemente da Amazônia e da Mata Atlântica, o Cerrado não é configurado como Patrimônio na Constituição Federal, apesar de sua biodiversidade ser considerada uma das 25 mais ricas do planeta e, em termos de savana, ser a mais rica.

Piro-Paisagem, nossa proposta para o Festival de Chaumont cujo tema deste ano é “Retorno à Mãe-Terra”, toma a destruição do Cerrado como mote de projeto. Nos últimos meses os olhos do mundo têm se voltado para as queimadas da Amazônia, enquanto o Cerrado continua sendo destruído para virar soja e pasto sem qualquer repercussão nacional ou internacional.

Piro-Paisagem é um arranjo de galhos podados e troncos queimados coletados em uma área protegida no sopé da Serra da Moeda (MG), local bem próximo da Casa no Cerrado. O projeto expõe os galhos em linha, qual animais abatidos pendurados num frigorífico, e funciona como um “jardim botânico póstumo” de espécies encontradiças nos estados de Minas Gerais, Goiás e Bahia. Em princípio, é um jardim morto feito de plantas expostas de cabeça para baixo.

Fotos: Eric Sander

Além da referência óbvia aos abatedouros, outra conotação do jardim é que o Cerrado é um bioma de árvores com raízes muito maiores que os galhos. São plantas adaptadas a regiões mais secas, capazes de alcançar lençóis freáticos muito baixos e, por isso, plantas mais terrestres que aéreas. Elemento essencialmente mineral, órgãos sem olhos e sem ouvidos que exploram um mundo sem sol e sem movimento, as raízes fazem das árvores seres anfíbios, ligando a terra ao ar, vivendo num mundo críptico e totalmente separado do nosso, e nutrindo as folhas que buscam a luz (Emanuele Coccia, 2016). É justamente nas profundezas do solo ácido e imprestável do Cerrado que elas encontram vida onde nenhum outro organismo consegue, transformando tudo o que tocam em vida.

[Tecnicamente, o aspecto retorcido dos galhos é explicado pela “queima do meristema apical”. Todas as plantas têm um meristema apical (zona de crescimento) e meristemas secundários que ficam inativos, só funcionando caso o meristema apical deixe de existir. Com as queimadas periódicas que ocorrem no Cerrado, o meristema apical seria queimado e com isso os meristemas secundários seriam ativados e iniciar-se-ia um crescimento em outra direção. A explicação do fogo ocasional por motivos naturais ganha fundamento quando se analisa algumas sementes que só germinam após terem sido queimadas – o que pode ser considerado uma proteção contra o fogo – ou mesmo quando se analisa a casca extremamente grossa, que é outra proteção contra o fogo.]

Fotos: Eric Sander

Muito mais vivo que morto, o jardim Piro-Paisagem é uma savana tropical que flutua sobre (e não toca) os solos frios e arenosos do vale do rio Loire, é uma matriz de galhos-raízes invertidos que desvela outros sentidos do Cerrado, das árvores, das queimadas.

SOBRE O FESTIVAL INTERNATIONAL DE JARDINS

Na Antiguidade grega, a Mãe Terra, Gaia, deusa mãe que personifica a terra fértil, era universalmente reverenciada, uma divindade comparável à deusa hindu Parvati… No frenesi da globalização e do desenvolvimento exponencial das sociedades focadas em seu “crescimento”, os vínculos com essa figura de proteção e nutrição foram tristemente enfraquecidos. No entanto, além de seu poder simbólico e mitológico, a Mãe Terra é uma comunidade auto-reguladora de todos os seres que a compõem, e que devem ser protegidos sem distinção. Seus componentes físicos e biológicos, os diversos e diversos ecossistemas, a biosfera e os oceanos interagem para manter um ambiente propício para a propagação da vida.

Lugar de reflexão e respeito por todas as harmonias misteriosas, o jardim, um microcosmo refletindo o macrocosmo, é a expressão da possibilidade de uma vida harmoniosa. A Terra é um jardim, e qualquer jardim deve ser uma lição sobre qual deveria ser a relação entre plantas, homens e mulheres numa época em que a Terra está sendo desfigurada, e por isso agora corremos o risco do nosso planeta colocar-nos em perigo. Onde quer que estejam, os jardins são o nosso futuro e devem fornecer um modelo que inclua um equilíbrio com a natureza e novos modos de convivência entre humanos e não humanos.

Os designers dos jardins do Festival de Chaumont 2020 apresentaram respostas ambiciosas para explorar essas ideias e dar-lhes expressão estética. Ampliando as maravilhas da Mãe Terra, eles inventaram telas contemporâneas destinadas a esclarecer, surpreender e inspirar. Os cenários que revelam são para nós tão originais que não podemos deixar de querer liberar e criar mais e mais espaços verdes.

DRÔLE DE TROGNE

DESIGNERS
Soline PORTMANN, paisagista, cenógrafo e Romuald BARDOT, arborista, especialista em trognes (FRANÇA)

Fotos: Eric Sander

SURVIENT LA TERRE, JAILLIT LA VIE

DESIGNERS
Martin GASC, arquiteto plástico, Marie LEHOUX, paisagista e Laure GUILLOU, cenógrafo designer (FRANÇA)

Fotos: Eric Sander

SOLSTICE

DESIGNER
Nicholas TOMLAN, designer de jardins (FRANÇA/EUA)

Fotos: Eric Sander

SOUVENIR DU FUTUR

DESIGNERS
Nicolas e Alice STADLER, designers, David DE OLIVEIRA, pedreiro e bombeiro, e Aurélien SERRAULT, gerente de uma empresa de paisagismo (FRANÇA)

Fotos: Eric Sander

DHARITRI: LE JARDIN DE LA TERRE MÈRE

DESIGNERS
CB DEEPTHI, arquiteto paisagista, GM CHANDRAKANTH e Pannag SHET, arquitetos (ÍNDIA)

Fotos: Eric Sander

DANS LES YEUX DE MÈRE NATURE

DESIGNERS
MAAK.space -Mark VAN DER BIJ e Louise MABILLEAU, engenheiros paisagistas, Karin VAN ESSEN, paisagista e Thyra BAKKER, estudante de design espacial (PAÍSES BAIXOS)

Fotos: Eric Sander

LE JARDIN DE GAÏA… AÏE AÏE!

DESIGNERS
Marc FELIX, arquiteto DPLG, paisagista DPLG e professor, Stephan SAIKALI, jardineiro, e Sylvain RUSTERHOLTZ, funcionário (FRANÇA)

Fotos: Eric Sander

SOUS LE SOLEIL AFRICAIN

DESIGNERS
Léon KLUGE, paisagista (ÁFRICA DO SUL)

Fotos: Eric Sander

Os projetos podem ser conferidos até 01/11/2020. Informações no site do festival.

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