Afinal, qual a formação necessária para se tornar designer de interiores?

Surgida a partir do nascimento da arquitetura, é praticamente impossível mensurar quando o homem iniciou suas primeiras experimentações pela arte do design de interiores. Estudos apontam que os primeiros registros da atividade foram encontrados no Egito Antigo, evoluindo até o formato que temos hoje. Apesar de se tratar de uma profissão tão antiga, ela só foi regulamentada no Brasil a partir de 13 de novembro de 2016, por meio da lei 13.369. Antes dessa regulamentação, não ficava claro no mercado quais as atribuições, direitos e deveres de um profissional da área. Embora a lei ainda deixe brechas não resolvidas, ela já aponta um caminho importante para a profissionalização do mercado.

É função do designer de interiores planejar e projetar toda a área interna das edificações. Para isso, os profissionais devem trabalhar seguindo uma série de normas, protocolos e procedimentos homologados por órgãos técnicos competentes visando otimizar recursos como estética, saúde e a segurança do cliente, respeitando normas de acessibilidade, ergonomia, iluminação, além de garantir conforto, térmico e acústico. Para tal, o profissional precisa estar muito bem preparado para assumir tamanha responsabilidade uma vez que ele será responsável por dar forma aos ambientes de acordo com os objetivos do cliente bem como de sua utilização.

Apesar da quantidade de informações disponíveis sobre o assunto, ainda hoje é possível perceber que existe um grande desconhecimento com relação às principais diferenças entre o decorador, o designer de interiores e o arquiteto. E essa confusão pode causar uma série de consequências graves relacionados à atribuição legal das profissões citadas, além é claro da responsabilidade civil que incorre a cada uma delas.

O decorador é geralmente um prestador de serviço, que pode ser formado ou não. E quando possui alguma formação, ela geralmente se deu por meio e um curso rápido. Mas na maioria das vezes são autodidatas. Por conta disso, as atribuições e responsabilidades de um decorador são muito restritas uma vez que ele não detém conhecimentos técnicos sobre vários componentes de uma obra. Eles podem atuar apenas nas funções que não alterem fisicamente a obra, ou seja, na escolha de móveis (cabe ao designer de interiores a especificação dos mesmos), adornos e cores de um ambiente.   

Já o designer de interiores, como citado acima, possui conhecimento mais específicos, resultado de uma formação muito mais completa, assumindo de forma integral a conceituação e especificação de ambientes diversos. Cabe a ele a criação e assinatura de projetos de interiores, elaboração de plantas de layout (que determinam a posição dos móveis e as regras de circulação dos ambientes), planta de forro de gesso e projeto luminotécnico. Ele também pode fazer desenho personalizado de peças de mobiliário, revestimentos, estudo de cores, além da definição do restante de materiais e acabamentos que serão utilizados. Mas é importante frisar que a atuação deste profissional é restrita a espaços internos e não inclui a parte estrutural. Ou seja, um designer de interiores não pode, sob nenhuma hipótese, mexer ou solicitar alterações na estrutura do ambiente sem autorização de um profissional capacitado, que no caso seria o arquiteto ou um engenheiro.

O arquiteto é o profissional responsável por projetar, coordenar e acompanhar a execução de todos os tipos de construção, sejam elas público ou privadas. Além de projetar, este profissional também escolhe e especifica os materiais e acabamentos que serão utilizados nas edificações, levando em consideração o uso do imóvel, as formas, disposição dos móveis, a ventilação, a iluminação, a acústica, a manutenção e os impactos ambientais e sociais que a construção pode causar. E o curso de arquitetura inclui as cadeiras que habilitam o profissional a seguir pelas áreas de urbanismo, designer de interiores e também pelo paisagismo.

Com a valorização da profissão de designer de interiores e com a crescente procura por estes profissionais no mercado, começou a surgir de uns tempos para cá uma série de cursos voltados para a formação na área. São desde cursos rápidos, na maioria à distância, quanto os regulares, reconhecidos pelas instituições competentes. É importante ressaltar que, o design de interiores é um campo muito complexo e requer, para o seu pleno desenvolvimento, uma formação adequada.

Existem no Brasil cursos em três níveis de formação, todos eles legalmente reconhecidos pelas instâncias pertinentes (MEC ou Conselhos Estaduais de Educação). São dois os cursos de nível superior, o bacharelado em design de interiores, com quatro anos de duração, cerca de 3000 horas de estudo (carga horária mínima de 2400h), que forma um profissional apto à prática, à pesquisa e à reflexão teórica sobre o campo; e o curso de tecnologia em design de interiores, com dois anos ou dois anos e meio de duração, com carga horária mínima de 1600 horas e que tem foco na prática profissional, tratando de um curso mais voltado para o mercado. Há ainda o curso de nível médio que forma o técnico em design de interiores, que hoje conta com 800 horas, mas existe um esforço das entidades competentes para ampliar ainda mais esse número.

A Associação Brasileira de Designers de Interiores, a ABD, ressalta que sempre foi uma defensora da formação adequada para o exercício da profissão. De acordo com Nora Geoffroy, designer de interiores, presidente do Conselho Acadêmico da ABD e docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, os cursos rápidos atrapalham o desenvolvimento do mercado uma vez que não oferecem condições aos alunos de exercerem a profissão de forma plena. “Os cursos de curta duração aumentam a confusão reinante e é claro que não podem, em termos gerais, atender à complexidade da profissão. Não formam um profissional, embora muitas vezes a propaganda enganosa leve as pessoas desavisadas a achar que são suficientes. O prejuízo para a profissão está justamente aqui: a prática do design de interiores por gente sem formação ou com formação precária provoca resultados insatisfatórios que enfraquecem a imagem do designer de interiores. A profissão pode trazer muitos benefícios para a qualidade de vida de nossa população na medida em que se apoia no usuário, de quaisquer níveis socioeconômicos, comprometendo-se com a inclusão e com o desenvolvimento sustentável. Mas isso é não é claro para a sociedade, havendo ainda muitas dúvidas a respeito”, destaca.

Para ela, o curso de nível médio pode sim ser um começo interessante para aqueles que sabem bem o que querem muito precocemente. “O técnico tem o seu papel, com certeza, principalmente se recorrer à formação continuada. No entanto, a complexidade do design, em uma visão mais acadêmica, requer estudos de nível superior e, nesse caso, cabe a escolha de acordo com o perfil do egresso de cada curso, se bacharelado ou tecnologia. É comum que a duração do curso mais curta seja um atrativo para os que estão ávidos por se profissionalizarem, mas o tempo maior dedicado aos estudos também pode ser um diferencial que atraia outros públicos. O importante é conhecer essas diferenças e escolher de forma consciente. Trata-se de uma escolha difícil, pois é preciso, antes, saber o que é, realmente, o design de interiores, com sua especificidade e seu foco no usuário, buscando uma fundamentação do projeto que vai muito além da estética e da funcionalidade. O design de interiores trabalha também com a dimensão psicológica, e com o aspecto simbólico dos ambientes, enquanto espaços de comunicação, buscando conferir pertencimento e autonomia aos usuários.”, defende a presidente do Conselho Acadêmico da ABD e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Existem várias escolas no Brasil e também no exterior voltadas para a formação na área. Uma das mais reverenciadas do mundo e procuradas por quem quer se especializar em diversos campos do design de interiores é certamente o Instituto Marangoni, fundado em 1935. A instituição, que está presente na Itália, França, Inglaterra, EUA e Índia (e mantém um programa no Brasil em parceria com a CASACOR), ainda conta com um programa de bolsas para cursos de graduação e pós-graduação.

A mineira Dodora Gontijo é formada em Design de Interiores pela UEMG, e é um dos nomes mais experientes e reconhecidos na área. Sua trajetória é marcada por diversos projetos, incluindo participações em mostras e importantes premiações. Não é a toa que o designer Sérgio Rodrigues decidiu homenageá-la ao criar uma mesa de jantar que acabou sendo batizada com o nome da designer.

Henrique Gualtieri
Dodora Gontijo é um dos nomes mais experientes e reconhecidos na área

“Eu acho que é muito importante essa base acadêmica e vejo que isso vem se perdendo nos tempos atuais. A chegada de novas tecnologias e todo esse imediatismo que estamos vivendo, alterou muito a nossa forma de trabalho. É tudo muito rápido, e é justamente por isso que precisamos investir em uma base sólida de conhecimento para não nos perdermos em meio a tantos estímulos. O jeito de viver vai mudando constantemente e somos responsáveis por ir imprimindo isso. Houve uma época em que o sonho de todo adolescente era ter uma TV no quarto, depois era o computador. Hoje, os espaços são muito mais limpos. Está tudo na tela do celular. E isso reflete no nosso olhar”, destaca.

Divulgação

Mesa Dodora, uma homenagem do Designer Sérgio Rodrigues

De acordo com Dodora, o trabalho de um profissional da área vai muito além do bom gosto, embora seja essa uma das características mais citadas. “É na verdade um mix de técnica e conhecimento. Eu posso por exemplo ter bom gosto com relação a obras de arte, mas eu não sei necessariamente fazer uma obra de arte. Eu posso saber escolher bem uma roupa, mas isso não significa que eu tenho condições de fazer uma roupa. Com bolsas e sapatos, idem. E na decoração é a mesma coisa. Existe um universo que é muito mais extenso e complexo do simplesmente fazer um desenho bonitinho no computador e apresentar ao cliente. Muita gente se ilude com o tal bom gosto, faz um cursinho qualquer e num primeiro momento pode até parecer fácil, mas acaba por se tornar uma atividade insustentável uma vez que o cliente também possui suas referências e precisamos ter uma bagagem capaz de nos preparar para o dia a dia”, reforça Dodora Gontijo.

Fotos: Jomar Bragança

Duas participações de Dodora na CASACOR Minas, em 2009 com a Sala de Convivência e em 2017 com a Sala Central

A mineira Cynthia Silva sentiu necessidade de investir em uma formação específica na área justamente depois de concluir o curso em Arquitetura e Urbanismo e perceber que mesmo com o título, não tinha conhecimentos suficientes para seguir atuando no segmento que tanto esperava. “A faculdade de arquitetura é muito técnica. A escola que eu escolhi era muito voltada para arquitetura institucional, arquitetura pública. E meu foco sempre foi interiores. Então ao final do curso eu senti essa necessidade de me especializar na área porque foi o que me levou para a graduação. Antes de terminar o curso eu já comecei a pesquisar sobre pós-graduação na área. Cheguei a ver vários cursos online na época, mas tinha muita resistência a este formato tanto que levei um choque quando percebi que existia um curso de arquitetura online. Se presencial já é super difícil, imagina então pela internet… Pesquisei escolas no Brasil e no exterior e me interessei bastante pelos formatos do IED Barcelona e Instituto Marangoni, e acabei optando pelo Marangoni justamente por estar localizado no maior polo de design do mundo”, relata.

Henrique Gualtieri
Cynthia Silva sentiu necessidade de investir em uma formação específica depois de concluir o curso em Arquitetura e Urbanismo

O curso escolhido por Cynthia, Interior Design, foi em formato intensivo, ou seja, ao invés de concluí-lo no tempo regular, que é de 2 anos, ela se formou como designer de interiores em apenas um ano. Mas a escolha por um tempo menor de formação também trouxe uma série de consequências no processo de formação uma vez que o prazo para conclusão de cada disciplina e seus respectivos trabalho era muito reduzido, exigindo muito mais envolvimento e comprometimento por parte dos alunos.

Fotos: Acervo pessoal

Registros de Cynthia durante o curso intensivo no Marangoni

“Por mais que seja um curso de 1 ano, a formação do Instituto Marangoni possui uma base técnica muito sólida, com professores que são referências mundiais. Ter feito o curso fora me deixou muito mais atualizada. Hoje por exemplo eu consigo identificar aqui no Brasil peças sendo lançadas como novidades, mas que eu já havia visto antes lá na Itália durante o curso. É inegável que no design de interiores a gente busque referências internacionais, e na maioria das vezes são europeias uma vez que é lá que estão concentradas as maiores fontes de estudos, as mentes e as marcas mais criativas, desenvolvendo produtos que são bastante desejados em todo o mundo”, diz.

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