DESIGN E ARTESANATO

Senhora das Florestas

Nada passa despercebido ao olhar atento e intuitivo de Monica Carvalho, uma carioca da gema, acostumada com a efervescência do Rio , mas que ao se embrenhar mato adentro numa pacata cidade de Minas, descobriu  nas sementes, nos galhos e na terra batida a simplicidade refinada, e o estilo  sofisticado porém, sem excessos e contido. Dona de um enorme acervo  cultural,   a  artesã, que também é  designer,  para quem não sabe, era a bem-sucedida professora de inglês, tradutora e intérprete, com agenda abarrotada de aulas particulares, e que ainda traz na bagagem títulos de cursos como os Teoria da Arte, no MAM, Rio de Janeiro,  História da Arte, no Louvre, em Paris e no Metropolitan Museum de Nova York.  

Murilo Meirelles
A artesã e designer Mônica Carvalho

Não bastasse o notável currículo, seu portifólio, inspirado a céu aberto ultrapassa a marca imensurável de biojoias, móveis, quadros, luminárias, castiçais, almofadas e esculturas, espalhadas no exterior e Brasil afora. Junto da empreitada estão os colares Olho de Boi, Retângulo Chifre, Seixos e Shantung; a Pulseira Tururi Prata; a Bolsa Cascalho Jarina; a Escultura Tronco e os Painéis Buriti, Jequitibá e Jarina Madrepérola, entre outras peças que dão à senhora das florestas um nome ainda mais conhecido. Tudo produzido no Atelier Monica Carvalho e Klaus Schneider, no Peixoto, pequeno bairro de Copacabana, onde o espaço estiloso é frequentado por grandes grifes da arquitetura, do designer e pelos amantes de suas artes.

Fotos Murilo Meirelles
Fotos Divulgação

Em preto e branco os colares Olho de Boi e Retângulo Chifre, Seixos e Shantung, na sequência a Bolsa Cascalho Jarina e os Painéis Buriti, e Jarina Madrepérola

Nessa trajetória Monica escreveu o livro “Artesanato Sustentável: Natureza, Design& Arte, editado pelo Senac e ainda ganhou prêmios! Da ONU, faturou o Mulher Artesã Brasileira, patrocinado pelo Sebrae Nacional, ao lado de mais 10 mulheres brasileiras. Levou também o troféu do concurso Sebrae Top 100 de Artesanato. Resultado de suas andanças por Lavras Novas, distrito da histórica Ouro Preto, primeira cidade no Brasil a ser reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade. Percorrendo os campos da região mineira conheceu Maria Aparecida Fernanda de Marins, uma catadora de lenha, surgida como uma luz para seu destino artístico. De um lado o talento de Monica e do outro, a intimidade da natureza com Cida.  Desse encontro aprendeu muito com a lenhadora e com seu pai, um mestre em tramar fibras de taquara e de bananeira.

Com a prosa correndo solta entre carioca e mineiro, a artista plástica não percebeu a hora de ir para casa, no Rio de Janeiro, e retomar a rotina. De volta, a sala de visita serviu de lugar para as “tranqueiras orgânicas”, como define, trazidas da viagem a Minas. O trabalho antigo se distanciava pouco a pouco, e ao invés de estudar os alunos se encantavam com os galhos, sementes, e garrafas plásticas que iam sendo transformados em belíssimas obras de arte. Desde o início, focada no conceito de utilizar apenas matérias-primas catadas, ganhou fama de Krajcberguiana”, que significa uma produção inspirada na obra do polonês Frans Krajcberg, artista plástico conhecido por sua luta na preservação da natureza. “Comecei garimpando pelo mato, seguindo trilhas na Floresta da Tijuca, ou pegando o carro e indo para Visconde de Mauá” lembra a designer. 

Fotos Murilo Meirelles

A produção fruto das andanças pelas cidades Mineiras: Painel Fibras, Jogo americano Açaí Shantung e Mnato Fruto Moeda

Através de pesquisas, adquiriu um arsenal orgânico na fonte, se aproximando de várias comunidades pelo interior brasileiro que desenvolviam um artesanato específico, explorando todo tipo de fibra natural. Suas obras remetem aos atuais problemas ecológicos do planeta e um alerta contra o descuido e agressividade com a natureza. Consciente da importância do aproveitamento racional dos recursos naturais, (na época um universo ainda restrito) Monica foi tecendo uma rede sustentável em torno de seu trabalho. No processo, encontrou formas de catar com mais profissionalismo e sem excessos que pudessem de alguma forma prejudicar o meio ambiente. Entre elas, as flonas, florestas nacionais de extrativismo, onde os moradores do entorno são treinados para explorar sem danificar a cadeia sustentável do habitat.

Com isso, passou a frequentar a Flona de Tapajós e a Fazenda Modelo, no Rio de Janeiro, abastecendo-se de sementes. Segundo a artista, esses projetos são patrocinados por bancos de investimento, a maioria de origem internacional. Monica lamenta, no entanto, o desconhecimento das pessoas sobre as flonas. “É um universo riquíssimo e fornecedor de frutos, fibras e texturas das mais diversas “, acrescenta. Com a ajuda da engenheira florestal Fátima Pina, especialista em recursos naturais, ela conta que foi possível desvendar esse processo e ganhar o respaldo que precisava e entender o cuidado necessário que se deve ter com cada espécie. “Dediquei-me horas a fio na carpoteca do Jardim Botânico carioca, um acervo vivo, onde guardam as sementes das espécies do parque, ressalta

Fotos Divulgação

Pulseira Turiri Prata e Colar Gravatá, Tucumã e Jarina tostada – 2009

Intuitiva, se voltou para o meio ambiente antes mesmo do boom da sustentabilidade, quando temas como Aquecimento Global eram ainda mais restritos a rodas científicas. Tamanho conhecimento fez dela uma referência. Projetos sociais diversos começaram a sondá-la para consultorias focada nas habilidades de diferentes grupos de artesãos, interessados no aprendizado de peças feitas com descartes da natureza. “O trabalho ganhou desdobramento junto a empresas privadas como a Coca-Cola, preocupadas com a reciclagem de alumínio e garrafas pet.” Mundo afora, a artesã partiu para lugares exóticos como a Guiana Inglesa, onde desenvolveu uma supervisão estética junto à etnia Macuchi.

Convidada pelo Sebrae, a artesã seguiu para o Acre, onde orientou um grupo (Bojari) que trabalhava com sementes. A partir do açaí, bambu, paixubão, cupuaçu, fez utilitários como xícaras e bowls. Em parceria com a rede Asta, partiu para as margens do Rio Negro e Parintins, desenvolvendo uma linha de bolsas, com o descarte de latas e garrafas pet da Coca-Cola (Projeto Coletivo Artes – Instituto Coca-Cola Brasil). Já em Bananal, no estado de São Paulo, capacitou as bordadeiras e tricoteiras do projeto Rendas do Amanhã. “Hoje elas tricotam fio de ráfia com tingimento natural e seus produtos estão à venda em Paris”, comemora a artesã. Convidada pelo Centro Cultural Kàjre, que atua junto à tribo Krahô da Aldeia Pedra Branca, no norte do Tocantins, desenvolveu uma coleção de cestaria e bolsas a partir de sementes e do reaproveitamento de couro.

O lançamento em 2014 do livro “Artesanato Sustentável: Natureza, Design & Arte, editado pelo Senac foi mais um grande incentivo. A obra mostra sua trajetória profissional e compartilha dicas de armazenamento e cuidados com sementes, frutas e fibras. Como um guia didático o livro ainda ensina o passo a passo de várias de suas criações, como as esculturas de cabaças e os porta-copos de açaí. “Foi um trabalho extenso, essencial para documentar todas as técnicas que desenvolvi”. Outro reconhecimento foi a exposição de inauguração do acervo do CRAB – Centro de Referência do Artesanato Brasileiro, no Rio de Janeiro. Na época, os curadores do espaço, designers Jair de Souza e Adélia Borges, encomendaram uma “chuva vegetal” abrindo a área da mostra. A resposta veio em forma de pendentes com 4 metros de comprimento cada, de açaí, macaúba, jatobá, misturando 38 tipos de sementes e desenhando um percurso natural, como uma imersão audiovisual.” Um espetáculo” recorda a artista plástica.

Fotos Divulgação

Expoisição Origem Vegetal – Crab 2016

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