O MUNDO E EU

Sente-se, por favor!

Uma casa, espaço público ou comercial apresenta as várias características que a tornam interessantes. A singularidade dos detalhes pode acelerar nossas emoções ou sensações, entre elas a de desconforto ou de bem-estar. Um objeto importante que pode vir a expressar uma fase e suas características são as cadeiras, criadas Egito Antigo, cerca de 2800 anos a.C.

A mudança de filosofia do Gostar, não ocorre de forma simples como muito se acredita. Veja bem, a transformação estética é influenciada fortemente pelos eventos históricos, que sempre   influenciará às mudanças estilísticas, mas podemos observar simultaneamente uma simbiose entre o passado e o presente. Como por exemplo a Cadeira Klismos que vem do passado para servir de inspiração. E não podemos esquecer que o significado de conforto demorou a surgir, assim como a política de consumo, os direitos da massa que durante décadas não tinham acesso a mobiliário. O papel da Escola Bauhaus com seus designers e suas criações, todo este complexo de ações e reações que exercem sobre nós, mas obviamente o fascínio e prazer do instante.

A CASACOR Minas Gerais 2021, pelo segundo ano consecutivo, acontece no Palácio das Mangabeiras, residência oficial dos Governadores do estado brasileiro de Minas Gerais. Inaugurado em 1955, o Palácio localiza-se na Serra do Curral, no bairro de Mangabeiras em Belo Horizonte. Foi construído no período de 1951 a 1955, a pedido do então governador mineiro Juscelino Kubitschek, que desejava transferir a residência de sua família para um lugar diferente do Palácio da Liberdade.

Desde a inauguração, o palácio serviu de residência para os governadores mineiros. Entretanto, o Governador Romeu Zema, que iniciou o mandato em janeiro de 2019, optou por residir em imóvel próprio, fazendo-se assim ser possível a Mostra onde podemos ver ambientes lindos e encontrar cadeiras cuidadosamente escolhidas para a composição dos espaços.

Uma experiência inesquecível é apreciar o pôr do sol entre as montanhas, se acomodar em um dos restaurantes participantes da CasaCor 2021 ou ainda admirar a piscina com seu formato orgânico que conduz o olhar para os jardins. Tudo isto sentado confortavelmente.

A moda e todos seus mecanismos, modismos e principalmente a filosofia da habitação vem para nos guiar e fazer escolhas, sejam elas tradicionais, clássicas ou ousadas. Mas a frase SENTE-SE, POR FAVOR, nos dias atuais, ganhou um significado poético. Sentar-se não é apenas um processo mecânico do corpo, mas também abriga o desejo de conviver e compartilhar, seja com uma taça de champanhe ou uma xícara fumegante de café, como nós mineiros que não dispensamos uma boa prosa! O que precisamos é de conversar para matar as saudades em um transbordar de gentilezas.

Mas não se sinta tão confortável, meu caro leitor. Fique atento! Segundo Jacques Dutronc, não deixe de aceitar o convite de quem te quer bem, afinal “Le monde entier est un cactus Il est impossible de s’asseoir!” (O mundo inteiro é um cacto e é impossível se sentar, sem uma certa tensão).

O NASCIMENTO DO CONCEITO CONFORTO EM MÓVEIS COORPORATIVOS

Conforto para os filósofos é significado de silencio e reflexão, e ao mesmo tempo e antagonicamente assentar a inquietação para pensar desacertadamente, frequentemente, as expressões conforto ou se sentir seguro em estado de inércia é um significado bastante variável, dependendo de quem as emprega, como e onde as emprega, todavia, há unanimidade com respeito à necessidade de conforto, e isto é observado por várias correntes e civilizações, sobretudo em ambientes de trabalho.

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Bill Stumpf

A apresentação da primeira cadeira ergonômica de trabalho do mundo, a Ergon, ocorreu no ano de 1976, Bill Stumpf – designer e um dos principais responsáveis pela criação, pesquisas muito, foram dez anos de pesquisa, para projetar a cadeira que mudaria para sempre a indústria de móveis coorporativos, os móveis de escritório. Foi de extrema importância suas pesquisas no campo de cadeiras para trabalho que serviu de referência para vários designers em todo mundo, Bill Stumpf ao entender alguns conceitos e sobretudo recriá-los em medidas e mecanismos no ano de 1976 projetou a cadeira que mudaria para sempre o universo da produção dos móveis de escritório

O objetivo central de suas pesquisas era o significado de conforto, Stumpf concluiu que a forma humana não possuía linhas retas, mas sim biomórficas (baseada em curvas, em continuidades). A partir desse conceito, as cadeiras seriam projetadas como uma metáfora da forma humana no visual, bem como a sensação tátil.

Uma vez definida a ideia, mas principalmente qual seria o formato de conforto, Bill Stumpf avançou seus estudos, uma vasta pesquisa sobre ergonomia extremamente detalhada, realizando então trabalhos junto a especialistas em medicina ortopédica e cardiovascular. Era preciso compreender os efeitos das cadeiras e da postura no sistema circulatório, nos músculos e nos ossos.

Bill Stumpf disse certa vez, “Trabalho melhor quando sou levado ao extremo. Quando chego ao ponto onde meu orgulho é calado e me torno inocente novamente. A Herman Miller sabe como me levar nessa direção, principalmente porque a empresa ainda acredita – mesmo anos após D.J. De Pree ter me dito pela primeira vez – que um bom design não é apenas um bom negócio, é uma obrigação moral. Isso sim é sentir-se pressionado”

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Herman Miller, principalmente a Aeron, considerada a mais bem-sucedida de todos os tempos.

Aeron Chair, projetada por Don Chadwick e Bill Stumpf em 1994

A parceria de Stumpf com a Herman Miller começou em 1970 quando ele se uniu à equipe da Herman Miller Research Corporation. Após abrir sua própria empresa in 1972, Stumpf criou a Ergon chair, a primeira cadeira ergonômica para trabalho. Mais tarde, com a colaboração de Don Chadwick, ele produziu a inovadora Equa e as expressivas Aeron chairs. Ele também foi o designer principal do sistema Ethospace.

Qualquer ambiente é construído, mas   o centro deste processo é a idealização, e o conceituar produz perguntas a serem respondidas com precisão, importante demais para ser ignorado, mas complexo demais para ser deixado de lado, e ao mesmo tempo tão presente na vida de todos.

Portanto quando você se sentar em uma cadeira de uma empresa, ou na área de espera de uma agência bancária, lembre-se que não foi apenas uma cadeira que lhe acomodou, mas para estes seus minutos de conforto tiveram muitos obstáculos e milhares de protótipos.

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Foram aproximadamente 10 anos de estudos até o lançamento da Ergon. Tendo como foco o significado de ‘conforto’, Stumpf concluiu que a forma humana não possuía linhas retas, mas sim biomórficas (baseada em curvas, em continuidades)

New Ergon

AS REFERÊNCIAS DO PASSADO E O DESIGN FUTURISTA     

As cadeiras podem ser encontradas em vários períodos históricos ou movimentos estéticos, e nos convida a pensar sobre as etapas de sua concepção a produção, as cadeiras mais antigas de que se tem notícia são as cadeiras egípcias, Egito Antigo, cerca de 2800 anos a.C. Naquela época, ainda eram de uso restrito dos soberanos. Somente mais tarde criaram o encosto que daria suporte à coluna. Assim nasceu o objeto cadeira, depois vieram os bancos.

Representavam riqueza, poder e a importância da hierarquia deste período. Feitas de ébano e marfim, esculpidas em madeira, com adornos dourados, com materiais caros e as pernas com formas bestiais ou em figuras domésticas.

Os elementos ou adornos de uma mobília ou de uma cadeira, estarão relacionados a ideia de tempo e cultura. Formam um conjunto significativo da escolha do mobiliário em uma sociedade e é muito importante ver os estilos de tempos passados ou culturas locais perdidas pois, muitas vezes, revisitados ou mesmo recuperados, servirão como inspiração no design contemporâneo.

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Cadeira de Napoleão com referências da arte egípcia e trono de D. Pedro II

Quero citar por exemplo a Cadeira Klismos, uma cadeira de pernas curvas que foi criada na Grécia Antiga e da qual se tem conhecimento através de desenhos feitos em cerâmicas. Ela é uma releitura do assento dos deuses, chamado de Klismos, o assento mais usado na cultura da Grécia Antiga. Perdida com o passar dos anos, a cadeira Klismos ressurgiu durante uma escavação no século XVIII e foi incorporada a diversos estilos, como o Regência, na Inglaterra e o Rococó, na França.

Uma cadeira pode ter estampas, pés dourados, ser estofada com tecidos exóticos e luxuosos, ainda acomodar almofadas. Os artigos da cultura árabe frequentemente são trazidos para a atualidade em composição do design contemporâneo. A iraquiana Rand Abdul Jamal, por exemplo, desenhou a poltrona Shape, procurando se apropriar da lógica dos processos artesanais árabes. A poltrona foi exposta na mostra Tanween, um dos destaques da Semana de Design de Dubai.

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Representação no cinema da cadeira Klismos. O nome vem de clismos , que era como os gregos chamavam a cadeira que tinha apoios curvos para cabeça e para os pés ao leito

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Existente em variações que diferem conforme cada estilo, a Klismos também influencia outros tipos de mobiliário contemporâneo

Zaha Hadid nasceu na cidade de Bagdá. Naturalizada britânica, Zaha Hadid tem seu nome reconhecido e aclamado mundialmente por conta de seu design não linear, desconstrutivista, acompanhado de curvas, formas e perspectivas,  sempre se inspirando na natureza com formas orgânicas. Ela foi a primeira mulher a receber o Pritzker, a maior premiação da arquitetura internacional, e também a medalha de ouro do Royal Institute of British Architects, e, em 2008, entrou na lista das 100 mulheres mais influentes do mundo, em uma publicação da revista Forbes, ocupando a 69ª posição.

Desenhou uma serie de objetos entre eles cadeiras, sofás, peças que parecem vindas do futuro, cheias de curvas e feitas com tecnologia de ponta (2011). Mulher genial e disposta a desconstruir o óbvio, Dame Zaha Mohammad Hadid revolucionou a arquitetura e o design com sua maneira inovadora e única de lidar com as linhas que viravam curvas, quebra de paradgmas.

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O primeiro projeto de Zaha Hadid e de seu escritório ganhou vida em 1993, quando ela foi contratada para projetar a Estação do Corpo de Bombeiros de Vitra

O Moon System foi feito em parceria com a B&B Italia. As costas, o assento e o braço do sofá parecem esculpidos de um só material em um formato contínuo e angular. Zaha Hadid o desenhou para fugir do que era conhecido como comum em termos de assentos na época. O sofá é acompanhado por uma otomana que pode ser incorporada à sua estrutura

Cadeira Z (2011). Feita de aço inoxidável, sua ergonomia foi bem pensada para que ela pudesse ter curvas bruscas, porém continuasse confortável

A MAIS INFLUENTE ESCOLA DE DESIGN E OS CRIADORES DE CADEIRAS ICÔNICAS

A Bauhaus foi uma das primeiras escolas de design com conceitos importantes. Às vezes rígidos, era fortemente devotado à funcionalidade, uma escola que sempre tentou estabelecer e provar que o funcional não precisa ser entediante ou feio, embora o próprio conceito de belo estava naquele momento, passando por grandes modificações.

A escola progrediu sob o comando do fundador Walter Groupius, que em 1923 viu o que os designers russos e holandeses estavam fazendo e imaginou a missão original da Bauhaus de unir e criar. Mudando-a para unir arte e tecnologia, o artista era inspirado pelas vanguardas modernistas da Europa, o que o instigava ainda mais a tornar a escola a principal referência do movimento modernista. As pessoas comuns mereciam ter acesso ao bom design que poderia ser produzido em massa e disponibilizado para o público em geral.

Foi então que muitos dos mais icônicos e duráveis designs da Bauhaus emergiram. Centrado em formas geométricas limpas, composição visual equilibrada e materiais como madeira, metal e vidro, o design da Bauhaus abraçou um visual futurista que ainda assim permanecia muito interessado na criação de produtos funcionais para o mundo real. Encorajando uma abordagem científica para o design, os aspectos mecânico e industrial não eram coisas a serem escondidas, mas pelo contrário, exibidas com orgulho.

Cadeiras desenvolvidas pelos principais designers que representaram a Escola Bauhaus com matérias-primas nobres e máxima atenção aos detalhes, tudo era cuidadosamente desenhado e executado, clássicos criados por Charles e Ray Eames, Mies van der Rohe, Lilly Reich, Le Corbusier, Vladimir Kagan, Eero Saarinen, que sempre serão desejados e certamente servirão de referência por várias gerações de arquitetos e designers.

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Cadeira Saarinen, Eero Saarinen; e Cadeira Eiffel Charles e Ray Eames

SERGIO RODRIGUES A IDENTIDADE DO BRASIL

Aquiteto e designer brasileiro, junto com Joaquim Tenreiro e José Zanine Caldas, foi o pioneiro a transformar o design brasileiro em design industrial e torná-lo conhecido mundialmente. Iniciou seu trabalho na arquitetura no projeto do Centro Cívico de Curitiba junto com os também arquitetos David Xavier de Azambuja, Flávio Régis do Nascimento e Olavo Redig de Campos.

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Sergio Rodrigues e a poltrona Mole

Teve o auge da sua carreira nos anos 1950 e 1960. Trabalhou com design de móveis de acordo com o modernismo no Brasil, trazendo a identidade brasileira para seus projetos, mas também nos materiais tradicionais como couro, palhinha e madeira. Valorizando e reverenciando a cultura brasileira e indígena, a cadeira de Sergio Rodrigues surge na década de 1950, quando a maioria dos móveis tinham linhas mais minimalistas e os pés palito reinavam absolutos. Ela revolucionou o mercado por ser robusta e extremamente confortável. O que muitos não sabem é que a peça que conferiu esta popularidade internacional a Sergio Rodrigues foi, na verdade, uma concepção feita a pedido do amigo de Rodrigues, Otto Stupakoff.

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A poltrona Kilin, batizada em homenagem à Vera Beatriz, que Sergio chamava carinhosamente de “esquilinha”, é a peça favorita de muita gente. De desenho arrojado, as formas e os encaixes da madeira nobre e bem modelada, o couro flutuando no ar é feito de forma a moldar e abraçar o corpo

Seu trabalho mais famoso é a poltrona mole de 1957, feita em couro e madeira com inovações de encaixe e estofado que inspiram produtos até hoje. Atualmente, a poltrona Mole integra o acervo do Museu de Arte Moderna (Nova Iorque) (MoMA).

MuC – FUTURO MUSEU DA CADEIRA BRASILEIRA

‘A cadeira é a arte e ofício. É convite a se assentar e conversar. Ela própria conta a história do homem e da mulher, desde o remoto tempo em que se puseram de pé e quiseram descansar’

SANTOS, Ângelo Osvaldo A. 2017  

 

“Será uma associação sem fins lucrativos, oficializada em 2016, tem como objetivo promover, incentivar e divulgar a cultura, as artes, a preservação e conservação do patrimônio Cultural da Cadeira em seu amplo sentido antrópico. A ideia da criação do museu surge após a aquisição de um acervo em 2006.

A cadeira: trata-se de um objeto que representa importante elemento no design brasileiro, principalmente as cadeiras da fase modernista, onde surge uma grande diversidade de criadores e criações.

‘O objeto Cadeira contém   uma extensa possibilidade de narrativas de cunho histórico, bem como retrata a evolução cultural registrada em seu aspecto formal e material. A história da cadeira em seu viés antropológico propõe inspirador diálogo social, cultural, político e econômico nacional”, João Caixeta, Coordenador e idealizador do MuC.

 

A história sendo contada por cadeiras. O museu da cadeira, apresentará ao público, estes objetos que chamamos de cadeiras, sobre perspectiva do design e seu contexto histórico, mas tem inserido o contexto humano, a filosofia por traz desse objeto em períodos diferentes, uma investigação cuidadosa do tempo. Os horrores da Segunda Guerra nos obrigou a refazer muitos conceitos.

Solenemente o tempo nos organiza, e muitos objetos, como cadeiras explicitam instantes que ao serem adquiridos, foram objetos de desejo e hoje de memórias. As memórias são responsáveis pela necessidade da formação do cenário, de uma cena vivida, a reconceituação de nossos instantes estão intimamente ligadas aos objetos que adquirimos ao longo da vida.

O universo do consumo faz parte de nossa própria identidade, representa claramente em que acreditamos ou defendemos como conceitos, sobre o universo secreto dos objetos e suas representações metafóricas.

Mas o que adquirimos, ou o objeto desejo precisa ter real relevância para o tempo.  

“Eu considero o mais luxuoso de tudo que se pode ser consumido, O TEMPO, luxo é ter tempo para fazer o que se ama, para se estar com quem amamos, é a consciência do que realmente conta “, me explicou João Caixeta.

A brincadeira de infância em que corríamos para não ficar sem cadeira, o ganhador sabia manter-se atento para sentar e ser o vencedor, serve de metáfora para a conduta dos dias de hoje. Um líder  nunca deve perder sua cadeira ao longo da história, principalmente em sua  consciência ou  julgamento.

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