Yara Tupynambá – A vida retratada em fases

Lucas Fonseca
11 min de leitura

 70 ANOS DE CARREIRA

Trazendo em sua obra a presença marcante de aspectos da mineiridade, a artista celebra os seus 70 anos de carreira

Com 89 anos de idade, e completando 70 anos de carreira no mundo das artes, Yara Tupynambá tem uma trajetória profissional brilhante. Desenhista, pintora, gravadora, ceramista e muralista, ela é uma das mais importantes artistas brasileiras. A relação com a arte vem desde criança. Apesar de sua mãe achar que ela deveria se dedicar a cozinha, Yara não tinha dúvidas: queria desenhar.

Raquel Guerra
Yara Tupynambá

Com 89 anos de idade, e completando 70 anos de carreira no mundo das artes, Yara Tupynambá tem uma trajetória profissional brilhante. Desenhista, pintora, gravadora, ceramista e muralista, ela é uma das mais importantes artistas brasileiras. A relação com a arte vem desde criança. Apesar de sua mãe achar que ela deveria se dedicar a cozinha, Yara não tinha dúvidas: queria desenhar.

A artista nasceu em Montes Claros, em Minas Gerais, no dia 2 de abril de 1932. Se mudou ainda cedo da cidade para Itaúna, local em que o pai trabalhava como engenheiro. Apesar disso, manteve uma relação íntima com sua cidade natal. Aos 16 anos, mudou-se novamente. Desta vez, para a capital belo-horizontina para concluir o seu curso de formação de professora no Colégio Sacré Coeur de Marie. O talento de Yara para as artes não passou despercebido por uma freira, que a aconselhou a procurar a escola de artes do Parque Municipal.

Em 1954, Yara oficialmente iniciou a sua formação artística. Dentre seus professores estão Alberto da Veiga Guignard e Oswaldo Goeldi. “Um artista sempre precisa de outro para falar sobre o que é válido e o que não é para o seu trabalho; a crítica mais importante que nós temos é entre nós mesmos. Eu tive a crítica de meus professores para melhorar, para chegar numa solução. Guignard me deu algumas coisas fundamentais dentro da pintura mineira, como por exemplo o uso da transparência, ele nos deu o conhecimento de técnicas. Tanto eu como a Maria Helena Andrés, o Petrônio Bax, todos temos as características importantes dessa marca dele de transparência”, avalia Yara.

Raquel Guerra

Pensando sobre suas referências, ela ainda cita a obra de Marc Chagall. “Eu não poderia deixar de dizer sobre a beleza da obra do Chagall. O trabalho dele me impressiona. Evidentemente, há outros artistas cuja obra toca o meu coração. Gosto de um artista porque ele é próximo de mim no sentido emocional, por exemplo.”

A primeira exposição de Yara aconteceu em 1960, no Rio de Janeiro, contando com a ajuda de Goeldi, que participou da organização e montagem da mostra. Em sua trajetória, a artista viveu muitas experiências para além de Minas Gerais e do Brasil. Percorreu países da Europa a e chegou a morar em Nova York durante um ano, o que resultou em uma grande série de trabalhos sobre a cidade. Apesar disso, a artista se considera “muito mineira”. “Minas está mais dentro da minha realidade, do meu coração, da minha família. Por isso, eu achei que era um tema vastíssimo, rico e pouco explorado até mesmo pelos próprios artistas mineiros que se restringem muitas vezes em só representar as cidades históricas. Temos uma temática enorme”, afirma.

Nas obras de Yara Tupynambá é possível perceber a presença marcante dessa mineiridade. “Eu procurei trabalhar sobre o próprio meio ambiente que vivia, ressaltando as condições clássicas, sociais, políticas e culturais do meu próprio povo e da minha própria realidade. Sempre elegi Minas como o grande tema, um tema variadíssimo que vai desde movimentos políticos, como a Inconfidência Mineira, até as atividades folclóricas, como a Festa do Divino, entre outros. Eu procurei pegar esses aspectos principais da mineiridade, citando-os naturalmente. Procuro sempre alguma coisa ligada a Minas, seja da cultura popular, seja da cultura erudita”, conta.

Raquel Guerra

A construção de seu trabalho, explica ela, vai se concretizando por fases. “Em uma fase eu trabalhei sobre o Vale do Jequitinhonha. Em outra eu trabalhei só sobre siderurgia. Minha exposição atual fala sobre a natureza, mas essa fase é um período da minha vida – e não a minha vida toda. É um pequeno período se eu considerar a minha vida toda de trabalho, mas é um pequeno gancho daquilo que eu fiz ao longo do tempo”, diz.

As cores são um traço forte na sua obra, inclusive no que diz respeito a relação do branco com o preto, o claro e o escuro. “Eu utilizo o preto e branco e é sempre um trabalho forte, poderoso. Também acho que o meu trabalho em cor é sempre marcado por cores muito fortes. É um resultado que tem um caráter bem brasileiro. O brasileiro gosta de cor”, analisa.

Paralelamente ao trabalho de artista, Yara Tupynambá tem um Instituto que leva o seu nome, onde ocupa o cargo de vice-presidente. Mas, ela logo garante: “o Instituto não tem o interesse em me promover, ele tem um papel voltado para ação social”. A artista também conta que o Instituto é a materialização de seu desejo de ajudar as pessoas a entenderem o trabalho. “O Instituto tem como finalidade formar pessoas para ofícios profissionais. No momento, estamos oferecendo cursos de pedreiro, bombeiro, eletricista, pintor; cursos que aumentam a capacidade do indivíduo ter um ofício”, conta, com entusiasmo.

Contribuir com a formação de pessoas também é uma característica muito presente na vida de Yara. Isso pode ser visto também por sua atuação como professora. “Eu também gosto muito dar aula de história da arte. Acho que nessas aulas ajudo as pessoas a compreenderem todo o processo de arte. Isso é muito importante para mim porque acredito que os próprios artistas precisam lutar para a formação de um público. Sabemos que o próprio país não se interessa pela formação por meio de governos, de cursos etc. Portanto, é o próprio artista que tem que lutar pelo seu papel, pela sua presença”, reflete.

OS 70 ANOS DE CARREIA E A NOVA EXPOSIÇÃO NO CCBB BH

Raquel Guerra

Celebrando a trajetória profissional de Yara, o CCBB BH (Praça da Liberdade – Belo Horizonte/MG) traz a exposição Yara Tupynambá – 70 anos de carreira. A mostra é um recorte da obra da artista e tem a temática voltada para o meio ambiente. São 74 obras de diferentes fases da carreira da artista, que podem ser apreciadas por tour virtual ou por visitas presenciais agendadas devido a pandemia. A exposição conta com quadros e gravuras de alguns de seus mais importantes painéis, além de uma série inédita sobre o Parque Municipal e os jardins da casa da artista, com as plantas e flores por ela cuidadas, assim como sua visão da casa e dos jardins de Claude Monet, em Giverny, na França dos anos 1980.

A exposição fica em cartaz até 20 de maio, de quarta a segunda-feira, das 10h às 22h. O acesso ao prédio do CCBB será mediante retirada de ingresso gratuito no bb.com.br/cultura ou pelo Eventim (site ou app) e apresentação na entrada, por meio do QR Code no celular. Entre outros protocolos, haverá restrição para o número de pessoas e o tempo de visitação nas salas da exposição. Também é obrigatória aferição de temperatura, uso de máscaras e disponibilização de recipientes com álcool em gel durante o percurso da mostra. Pais e cuidadores precisam apresentar o ingresso na entrada para crianças acima de 2 anos. Já o tour virtual, terá livre acesso pelo site www.yaratupynamba.org ou pelo site do CCBB. O projeto tem o patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil.

Vídeo fornecido pelo Instituto Yara Tupinambá

“Para mim uma exposição dessas é um luxo! O CCBB é muito exigente com relação à qualidade, então é preciso estar muito bem colocado para que eles possam te convidar para uma exposição. Além disso, foi preciso ter o projeto aprovado pelo Ministério da Cultura. Me sinto honrada em estar pertencendo a esse grupo que o CCBB considera como bom e, é claro, me sinto feliz de estar em contato com o novo público que o CCBB me deu”, afirma Yara.

Ao olhar para trás e observar os seus 70 anos de carreira – marcados por inúmeros prêmios, exposições, mostras e citações em livros – Yara diz que o sentimento é de que ela foi absolutamente dedicada à arte. “Isso é uma loucura! Ser artista no Brasil é ser um pouco louco. Há uma dificuldade muito grande em tudo. E eu consegui viver de arte”, reflete. Ela ainda completa: “Eu olho para trás e vejo que eu tive uma coerência,  uma dedicação ímpar e não tive medo de não chegar lá. Eu sempre pretendi chegar no melhor que eu podia, isso sim foi o meu grande gancho”, conclui.