AZULEJARIA

ATHOS BULCÃO, O PAI DA AZULEJARIA BRASILEIRA

A tradição da azulejaria remete às manifestações artísticas presentes no Egito antigo, passando por civilizações da Mesopotâmia, pelo Império Otomano, mas foi somente algum tempo depois, mais precisamente no século 16, em Portugal, que a arte de azulejar passou a ser considerada uma expressão cultural.  No Brasil, desde o período colonial com sua instauração, passando pelo seu resgate na década de 1930, a azulejaria se popularizou enquanto atividade e por meio do uso dos azulejos como ornamentos arquitetônicos e decorativos. Em todos esses anos em terras brasileiras, ninguém fez mais para a azulejaria nacional do que o inconfundível Athos Bulcão, com seus traços inconfundíveis, cores marcantes, exaltando uma personalidade que se transformou em símbolo de brasilidade. Por este motivo ele é considerado como o pai da azulejaria brasileira.

Carioca de nascença, Bulcão cresceu cercado de amizade com alguns dos mais importantes artistas modernos como Jorge Amado, Enrico Bianco, Fernando Sabino, Ceschiatti e Manuel Bandeira. Embora nascido e criado no Rio de Janeiro, foi em Belo Horizonte e, especialmente, em Brasília, que Athos se consagrou e fez seus trabalhos mais representativos, em parceria com o arquiteto Oscar Niemeyer

Acervo Fundação Athos Bulcão
Athos Bulcão e Oscar Niemeyer

Fugindo dos espaços herméticos e sagrados de museus, Athos Bulcão levou a arte da azulejaria para painéis abertos nas ruas de Brasília, transformou edificações imponentes de Niemeyer e João Filgueiras Lima – o “Lelé” – na capital federal e em Belo Horizonte. Assim, seu trabalho é acessível e apresentado ao público que ocupa as ruas das cidades, que exerce atividades corriqueiras e se dispõe a enxergar a beleza das construções e o potencial de realçar o concreto da arquitetura que a azulejaria traz.

Inspirado inicialmente pela tradição portuguesa e passando pelo aprendizado sobre a utilização de cores na época em que foi pupilo de Portinari, o legado de Bulcão está preservado em um repertório vasto que extrapola sua contribuição e registros em azulejos, manifestado também em telas, tintas pincéis e outras experimentações artísticas que integram o acervo da Fundação Athos Bulcão, com sede em Brasília

HOMENAGEM

Ao longo do ano de 2018, o artista foi homenageado na exposição “100 anos de Athos Bulcão”, que contextualizou sua trajetória propondo uma conexão entre suas obras e um adensamento da poética que propunha com seus trabalhos. Foram mais de 300 trabalhos, alguns dos quais inéditos, que passaram pelos espaços do Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Dividida em núcleos, “100 anos de Athos Bulcão” destacou também a pintura figurativa do artista realizada nos anos 1940 e 1950, antes de Brasília; os croquis que Bulcão fez para o grupo de teatro “O Tablado”, do Rio de Janeiro; os figurinos das óperas “Amahl” e “Os Visitantes da Noite de Menotti”; paramentos litúrgicos modernistas; grande acervo de seu trabalho gráfico e até os lenços que desenhou quando estava em Paris.

Sobretudo, o que a exposição apresentou foi a essência do trabalho de Athos Bulcão que se sustenta na brasilidade das cores, nos traços inconfundíveis dos desenhos, na personalidade das pinturas, na lógica imprevista das fotomontagens, na força dos cenários e figurinos, na relação univitelina entre arte e arquitetura, no sagrado e no profano e, acima de qualquer coisa, a explosão da azulejaria brasileira.

Fotos: diegograndi/iStock

UM ARTISTA BRASILEIRO COM RECONHECIMENTO MUNDIAL

Com raízes estabelecidas em Brasília, Athos Bulcão deixou um legado vivo por toda a capital nacional em diversas construções que, em sua maioria, são frutos da parceria com Niemeyer. Na cidade candanga, por exemplo, são inúmeras construções ornamentadas por intervenções de Bulcão, seja por meio da azulejaria ou no desenho de arcos que compõe os projetos curvilíneos que se tornaram assinatura de Niemeyer.

É até difícil citar destaques da obra de Athos em Brasília, uma cidade que emana arte e intervenções por suas planícies e edificações. São trabalhos datados desde os anos 60 e 70, como no interior do Cine Brasília, que conta com um relevo em madeira e um laminado polivinílico que conserva os traços autorais do artista ao mesmo tempo que destoa do trabalho com os azulejos; passando por criações mais recentes da década de 90, como o Painel presente no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek.

Artista de forte brasilidade em seu ofício, Bulcão tem sua memória artística espalhada de norte a sul do país. No Rio de Janeiro, o emblemático Edifício Manchete, a sede de outrora da Rede Manchete e da popular revista de mesmo nome, conta com um majestoso Painel de Azulejos em azul e branco, finalizado em 1965. Em Belo Horizonte, capital mineira, Athos Bulcão marca outras contribuições dos projetos de Niemeyer como na Fachada em ladrilho hidráulico do Edifício homônimo ao arquiteto, localizada na vistosa Praça da Liberdade, finalizado em 1960, além de ter participado da montagem dos painéis assinados por Portinari para o Complexo Arquitetônico da Pampulha.

Pouco mais a Nordeste do Brasil, Athos Bulcão deixou nos anos 80 um lindo Painel de Azulejos em cores vivas e alegres na Estação de Transbordo da Lapa, na cidade de Salvador; mesma década em que realizou o painel de azulejos da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação de São Luiz, no Maranhão. A intervenção em edificações da rede de saúde também se manifesta em um Muro vazado na unidade de Fortaleza, no Ceará, assim como em Belo Horizonte com uma intervenção em relevo com função acústica.

Athos na Contemporaneidade

E importante observarmos que o trabalho de Athos Bulcão não ficou estacionado apenas na história. Ele se mantém vivo e suas obras fazem parte do nosso cotidiano e permanecem conectadas ao nosso tempo. Projetos recém lançados como o Alameda Jardins, em São Paulo, mais novo empreendimento residencial da Tishman Speyer, com empreendimentos nas principais capitais do mundo, conta com um grande painel assinado por Athos Bulcão logo no hall de entrada do luxuoso residencial, que tem projeto assinado pelo escritório aflalo/gasperini.  

Criada em parceria com a Fundação Athos Bulcão, a Portobello, umas das maiores empresas de cerâmica do país, também homenageou o artista no seu centenário com o lançamento da coleção Home & You, que está disponível nas lojas da marca desde 2018 As peças são assinadas por três artistas azulejistas considerados discípulos do mestre: o mineiro Alexandre Mancini, a brasiliense Lígia de Medeiros e o goianense Paulo Humberto. As peças criadas pelo trio se destacam pelas cores sólidas, formas fluidas e desenhos contínuos, proporcionando um resultado visual impressionante e, ao mesmo tempo, muito agradável.

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