CASACOR São Paulo: quando o design reencontra o afeto

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O DESENHO INVISÍVEL DO BEM-ESTAR

Muito além das tendências, a mostra revela uma arquitetura que desperta os sentidos, valoriza a memória e devolve à casa seu papel mais humano: acolher

Logo na chegada, fica evidente que a experiência começa antes mesmo da entrada nos ambientes. O percurso pelo jardim prepara o visitante para o que será encontrado adiante. Música ambiente, aromas, sons da água e uma vegetação cuidadosamente planejada despertam os sentidos e tornam a caminhada parte integrante da arquitetura. A mostra deixa claro, desde os primeiros passos, que a experiência do espaço vai muito além da percepção visual.

Ao longo do percurso, os ambientes se revelam gradualmente. Não há pressa em entregar tudo de imediato. Os caminhos se abrem aos poucos, convidando o visitante a descobrir cada espaço em seu próprio ritmo. Essa construção da experiência é reforçada pela riqueza da materialidade: pedras naturais, tecidos, fibras, madeiras, texturas e superfícies que despertam o desejo de tocar os materiais.

Os tecidos assumem um protagonismo incomum. Estão presentes não apenas em estofados, cortinas e almofadas, mas também em paredes e, em alguns projetos, até mesmo nos tetos. A sensação é de acolhimento. As fibras naturais, cordas, algodões e texturas artesanais aparecem de forma recorrente, reforçando uma arquitetura mais humana e confortável.

A natureza também se manifesta na escolha dos materiais e da paleta cromática. Predominam cores terrosas e acabamentos naturais, criando ambientes que transmitem calma e equilíbrio. Em um segundo momento da visita, surgem cores mais intensas — verdes profundos, bordôs e azuis marcantes — que acrescentam personalidade aos projetos sem romper com a atmosfera acolhedora construída desde o início.

Outra característica recorrente é o protagonismo das pedras naturais. Elas deixam de ser simples revestimentos para ocupar posição de destaque em bancadas, mesas e peças de mobiliário. Rochas com veios expressivos, desenhos marcantes e acabamentos cuidadosamente boleados transformam-se em verdadeiros elementos escultóricos. O olhar é naturalmente conduzido para esses materiais, que assumem papel central na composição dos ambientes.

As formas curvas aparecem com a mesma intensidade. Bordas arredondadas, cantos boleados, canelados e mobiliários de linhas orgânicas repetem-se em diversos projetos, revelando uma linguagem comum entre arquitetos de diferentes estilos. A rigidez das linhas retas cede espaço à suavidade das curvas, reforçando a sensação de conforto e fluidez.

Talvez a percepção mais marcante desta edição seja o retorno da “casa com cara de casa”. Depois de anos em que muitas mostras privilegiaram cenografias sofisticadas e espaços quase contemplativos, a CASACOR parece resgatar o significado do morar. Cortinas generosas, tapetes, estofados volumosos, móveis acolchoados, peças de família, antiguidades e louças centenárias compõem ambientes que evocam memória, pertencimento e afeto.

Essa intenção aparece também nos pequenos detalhes. Em diferentes ambientes encontramos objetos carregados de história e, curiosamente, caminhas para os pets.. Registramos sua presença em pelo menos quatro ou cinco projetos. Mais do que um elemento decorativo, elas reforçam a ideia de que os espaços foram concebidos para representar casas habitadas, onde todos os membros da família — inclusive os animais de estimação — fazem parte da narrativa.

Os jardins acompanham essa mesma proposta. Não são apenas áreas verdes que conectam os ambientes, mas espaços cuidadosamente desenhados para ampliar a experiência sensorial. Espécies aromáticas, fontes, sons da água e diferentes texturas vegetais transformam o paisagismo em parte essencial da arquitetura, prolongando a sensação de acolhimento para além dos interiores.

Ao final da visita, fica a impressão de que a principal tendência da CASACOR São Paulo não está em um material específico, em uma cor ou em um estilo de mobiliário. O que une grande parte dos projetos é uma mudança de linguagem. A mostra parece celebrar um retorno ao morar como experiência afetiva e sensorial, valorizando a memória, a natureza, a materialidade e o conforto. Mais do que ambientes sofisticados, encontramos espaços que convidam à permanência, despertam os sentidos e resgatam o verdadeiro significado da casa.