de discípulo a mestre

Nos últimos 20 anos, a azulejaria brasileira vem passando por um grande processo de renovação. E nomes como Alexandre Mancini foram fundamentais para este processo. Reconhecido como discípulo do mestre Athos Bulcão, o multiartista se destaca pela identidade e originalidade

No Brasil, a utilização do azulejo na arquitetura e na decoração teve início a partir das heranças portuguesas advindas da colonização. As peças eram comumente utilizadas como revestimentos de barras decorativas e de fachadas inteiras. Durante muito tempo, todas azulejo vendido no Brasil era importado, na maioria das vezes, de Portugal, reproduzindo as tradições lusitanas. Por se tratar de um país tropical, com forte incidência de sol e chuvas, o azulejo logo alcançou popularidade por sua resistência e durabilidade, tornando-se um material indispensável em quase todas as construções.

Na década de 30, a partir da renovação da arquitetura brasileira, alguns artistas começam a explorar o azulejo como possibilidade de expressão para suas manifestações, fazendo com que essas criações assumissem um lugar de destaque na composição dos espaços, dando origem a um movimento de nascimento de uma azulejaria brasileira que revelou nomes como Cândido Portinari e Athos Bulcão (que dizem ter sido assistente de Portinari na montagem da Igrejinha da Pampulha, em Belo Horizonte), mas que foi além e possui inúmeros trabalhos em Brasília e também em diversas outras cidades.

Foi a arquitetura brasileira a principal responsável por impulsionar a arte da azulejaria no país. Oscar Niemeyer foi um dos maiores entusiastas, convidando Portinari e Athos Bulcão para a criação de grandes superfícies revestidas, chamando a atenção para este elemento de forma estética. Mas o fato é que azulejaria não se resume aos mestres do passado, que merecem ser imortalizados e reverenciados por todas as gerações.

Desde os anos 2000 observamos a existência de um movimento de renovação na área, com diversos expoentes que trabalham incansavelmente. Isso vem fazendo com que a azulejaria autoral retome mais uma vez o status de arte (e esperamos que continue se mantendo neste lugar). Um dos nomes fortes da azulejaria brasileira contemporânea é o mineiro Alexandre Mancini, que se dedica exclusivamente ao ofício desde 2006.

Leca Novo
Alexandre Mancini, ao fundo, um painel criado por ele que integra o acervo da exposição “100 anos de Athos Bulcão”, numa seção que evidencia artistas contemporâneos que foram nitidamente influenciados pelo mestre

Autodidata, o belorizontino escolheu a azulejaria como matriz de sua expressão artística. Mas engana-se quem pensa que ele é um simples azulejista. Na verdade, Mancini deve ser considerado como um multiartista uma vez que a sua principal base de trabalho é o desenho. É ele que determina qual será o suporte utilizado para suas obras. Pode ser o azulejo tradicional, o azulejo pintado à mão livre. Mas seus desenhos também estampam gravuras, pinturas, telas com dimensões variadas ou até mesmo painéis de grandes ou pequenas proporções. Dezenas deles estão espalhados por todo o país em fachadas, salas e hall de entradas. Eles podem ser levados a qualquer superfície. “Algumas composições simplesmente não são passíveis de execução em azulejo devido a questões técnicas de produção encontrando, desta forma, sua vocação nas telas, por exemplo, mas poderia ser no vidro, na escultura, na gravura ou até mesmo na música”, destaca Alexandre Mancini.

Influências

Sobre suas principais influências, Mancini destaca: “Tenho profunda admiração por diversos artistas, mas há, de fato, alguns poucos que me inspiram de forma comovente. São eles: Mário Silésio que, para mim, criou uma identidade azulejar belorizontina; Sol LeWitt que afirmou a importância do pensamento criativo que se sobrepõe à própria execução; Neil Fujita e suas capas de discos; Gio Ponti que elevou a concepção dos azulejos ornamentais; Eduardo Nery, a quem pude ter como amigo, e sua profusão de cores e movimento nos azulejos; Burle Marx que desenvolveu inúmeros painéis em estilos tão distintos, mas sempre com uma assinatura visual claríssima; e Paulo Rossi Osir, o criador da Osirarte, o artista que permitiu a existência da azulejaria brasileira”.

Bruno Pacheco
O painel Caminho em Cores, de 2011, foi criado com o objetivo de dar boas-vindas aos frequentadores de um edifício comercial da capital mineira

Processo artístico

Os primeiros traços nascem em uma espécie de caderno de estudo, em tamanho A3. É nele que o artista vai criando e dando forma as ideias de jeito fluido, sem compromisso. A proposta é desenvolver o desenho seguindo um modo totalmente livre, desprendendo-se nesta fase de quaisquer regras e amarras criativas. E só depois de finalizado é que ele vai entender a viabilidade de sua aplicação e a superfície que irá abrigá-la.

Anos de estudos solitários o gabaritaram para conviver com o grande mestre da azulejaria brasileira, Athos Bulcão, de quem se tornou discípulo. O primeiro encontro entre os dois ocorreu em 2007 e o artista lembra como um momento marcante de sua carreira. “A força daquele momento definiu enormemente minha trajetória”, reforça.

Bruno Pacheco

Todo o processo de produção é realizado de forma inteiramente manual pelo próprio artista

O mineiro é, desde 2012, artista reconhecido e chancelado pela Fundação Athos Bulcão justamente por seguir à risca as tradições azulejares do mestre. Tanto que Mancini é o artista responsável por executar as peças que fazem parte do acervo da Fundação, que fica em Brasília.

Todo o trabalho de Alexandre Mancini tem como objetivo emancipar o painel de azulejos de sua função de integração de espaços, fazendo com que deixem de ser reconhecidos meramente por sua função, mas que sejam analisados sob a ótica dos trabalhos artísticos uma vez que são obras desenvolvidas por grandes artistas. Seus traços consideram a geometria como linguagem universal que deve ser amplamente explorada, revelando suas obras de forma extremamente impactante, não pelas partes, mas sim pelo todo.

Jomar Bragança

A primeira ideia da designer de interiores Valéria Junqueira ao saber que os banheiros públicos da CASACOR Minas 2019 ficariam em definitivo no Palácio das Mangabeiras, a residência oficial dos governadores de MG, foi convidar o artista Alexandre Mancini para criar um painel. Neste trabalho, ele presta uma homenagem ao modernismo brasileiro

Bruno Pacheco

Painel de azulejos pintado a mão

Pedro Kok

Painel de azulejos em projeto residencial

Painel de azulejos em projeto de fachada 

E como o mundo dá voltas, em 2014, ele foi convidado a ir até Portugal para ministrar palestras e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e na Escola Superior de Arte e Design de Caldas da Rainha, sobre os pontos em comum e as principais diferenças observadas entre a azulejaria portuguesa e brasileira.

Principais obras

Ao longo de sua carreira, Alexandre Mancini desenvolveu e continua desenvolvendo inúmeros projetos que podem ser conferidos em diversas cidades do país, com destaque para Belo Horizonte, sua cidade natal. Entre os destaques estão seis painéis na Praça da Pampulha, no complexo arquitetônico assinado por Oscar Niemeyer, incluindo obras de Cândido Portinari. Mancini também assina a fachada da sede do Clube Atlético Mineiro, um dos trabalhos que mexe com seu lado torcedor e tem um painel na fachada do Sebrae/MG. Foi um dos artistas convidados a desenvolver os pôsteres oficiais das Olímpiadas 2016, no Rio. Além disso, é constantemente convidado por arquitetos, designers de interiores e até construtoras de todo o país para desenvolvimento de trabalhos autorais exclusivos.

Fotos: Élcio Paraíso e Bruno Pacheco

À esquerda, um dos seis painéis na Praça da Pampulha e à direita painel na sede do Clube Atlético Mineiro

Futuro próximo

Atualmente, Alexandre Mancini está trabalhando na transformação de seu escritório, no centro da capital mineira, em um estúdio/ateliê. A ideia é ter um espaço adequado onde ele possa receber pessoas interessadas em conhecer mais sobre seu trabalho. Uma de seus desejos atuais é poder investir na formação de novos profissionais na área. “Tornei-me um artista azulejista em um momento em que não havia esta profissão, pelo menos formalizada. Aprendi sozinho sobre técnicas de produção, criação, estilos, conceitos etc. Quero poder contribuir com meu conhecimento para formar outras pessoas na área. Por envolver conhecimentos de arte, design (gráfico, de produto, de superfície), arquitetura, patrimônio, história, pintura, serigrafia, contabilidade, gestão, vendas e até de comunicação, a azulejaria vai além da formação técnica, podendo contribuir para a formação humana do indivíduo”, destaca.

Bruno Pacheco
Alexandre Mancini em seu ateliê
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