DESVENDANDO MATERIAIS

O travertino romano e a continuidade efêmera dos séculos

Parte da mágica da arquitetura está no fato de que ela é parte fundamental das nossas vidas e, na maior parte do tempo, nem nos damos conta disso. Ela nos serve, assim como é o caso do design, a partir do momento em que encontra soluções inteligentes para questões funcionais fundamentais existentes nos ambientes que tipicamente habitamos. A maioria de nós nem considera a existência dessas questões, afinal, um arquiteto já pensou sobre: o posicionamento mais adequado de bancadas, as formas mais interessantes e criativas de aproveitar a luz natural dos ambientes e também os materiais com maior custo-benefício para colocar no interior de nossas residências.

Não nos damos conta da existência dessas questões não por serem triviais, mas porque não precisamos: há profissionais que já as levaram em consideração. Apesar disso, pode ser vantajoso para qualquer pessoa ter o conhecimento de como determinados materiais que a arquitetura utiliza cotidianamente (ou nem tão cotidianamente, dependendo da situação) performam em determinados contextos. Como leigo, é possível pensar não conhecer materiais utilizados tipicamente na arquitetura – e claro, esse pensamento pode até ser verdadeiro – no entanto, algo que todos podem identificar com certo grau de facilidade são as grandes e famosas construções do mundo, que apresentam estruturas inegavelmente marcantes e imediatamente reconhecíveis. Mais sobre isso, a seguir.

Esta matéria tem como objetivo trazer informações interessantes e importantes sobre o famosíssimo travertino romano. Um material que, apesar do custo elevado, tem sido cada vez mais procurado, devido à sua beleza e características inigualáveis.

Foto: iStockphoto

O travertino romano é uma rocha calcária e, portanto, mais porosa – é conhecido justamente por suas cavidades, que conferem características autênticas a cada uma das pedras. É importante ressaltar também que o travertino romano não é o único tipo de travertino existente, há também os travertinos nacional, navona, noce, silver, gold, brown e negro.

O que há de romano no travertino

Sem sombra de dúvidas, uma das construções mais famosas e antigas do mundo é o Coliseu. Trata-se de uma das estruturas que simboliza a cidade de Roma, e onde cenas históricas muito importantes se desenrolaram. Construído em pleno Império Romano durante a dinastia Flávia – a construção do Coliseu iniciou-se em 72 d.C. e terminou em 80 d. C., quando ocorreu a sua inauguração pelas mãos do imperador Tito, com festividades que duraram cerca de cem dias.

O Coliseu é um anfiteatro e, inicialmente, foi construído para oferecer entretenimento gratuito para os cidadãos de Roma – entretenimento patrocinado por “benfeitores” ou pelos próprios imperadores: o famigerado pão e circo – uma estratégia para distrair a população das más condições de vida oferecidas pelo Império. Além disso, o Coliseu também é muito conhecido por ter sido palco das famosas lutas entre gladiadores, muito comuns durante a dinastia Flávia. Os gladiadores eram, em geral, escravos que lutavam em troca da promessa de liberdade ou cidadãos treinados que escolhiam essa ocupação para tornarem-se heróis na cidade.

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Palácio da Civilização Italiana, Roma (Itália)

Todas essas curiosidades sobre o Coliseu foram imortalizadas nas telas de cinema ou nas páginas de livro que sobreviverão ainda por muitos séculos. O que a maioria das pessoas não sabe, no entanto, é que toda a estrutura da edificação foi construída utilizando o travertino romano. Além disso, mármore também foi utilizado na construção e no acabamento do anfiteatro. Também é possível encontrar esculturas, monumentos e portais decorativos que têm esse tipo de travertino como matéria-prima.

Não é preciso dizer que uma das vantagens de se optar pelo travertino romano é a durabilidade, não é?

Brincadeiras à parte, trata-se de um material de boa qualidade que pode durar bastante tempo, se bem conservado e mantido em condições adequadas. No caso do Coliseu, estamos falando sobre o que atualmente é um dos grandes monumentos históricos da História mundial, uma obra arquitetônica tombada. Será que o travertino romano é uma matéria-prima interessante para construir peças arquitetônicas e ambientes que se usa no cotidiano, em um âmbito residencial? Essa pergunta, quem irá responder é você, leitor. No entanto, alguns aspectos acerca da composição e dos cuidados com o material devem ser levados em consideração para possibilitar uma escolha informada.

Compreenda o material

Compreender as propriedades básicas e a estrutura dos materiais é essencial para entender as questões de custo-benefício envolvidas na arquitetura. Alguns materiais são interessantes para alguns tipos de construção e não para outras, e fazer esse tipo de análise depende de várias questões: compreender a praticidade e o tipo de ambiente em que será utilizado, a oferta no mercado, a quantidade necessária e o tipo de trabalho de que depende a manutenção adequada do material.

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Como mencionado anteriormente, o travertino romano é uma pedra calcária, composta principalmente por calcita, aragonita e limonita. É, além disso, uma rocha natural, o que significa que sua produção não é industrial – ela é encontrada por meio da extração, principalmente na cidade de Tivoli, na região do Lácio. Ser natural, significa que a oferta do material não é ilimitada. E, claro, quando a oferta de um produto é limitada, seu preço aumenta.

Além disso, dizer que o travertino romano é calcário significa que uma de suas principais características é a porosidade, responsável pelas pequenas cavidades que são tão marcantes nas peças por ele compostas. De acordo com pesquisas experimentais, a porosidade confere as seguintes propriedades para a rocha: dureza, resistência e permeabilidade. Na prática, isso significa que algumas precauções precisam ser tomadas para que o material seja funcional no ambiente em que for incorporado.

Uma questão, nesse sentido, é a permeabilidade do travertino romano. Para que ele seja inserido em construções, de uma forma geral, é preciso impermeabilizá-lo. De acordo com pesquisas, a impermeabilização é importante para a conservação da rocha e para o aumento de sua durabilidade. Isso pode ser feito através da aplicação de materiais hidrofugantes ou através do revestimento da pedra. No entanto, essa última alternativa apresenta um ponto negativo: o revestimento preenche as cavidades do travertino romano que são parte de seu charme único.

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Dicas de conservação do travertino romano

De acordo com Flávio Anselmo e Evaldo Ferreira, da Polibrasil, o travertino romano, mesmo com os buracos naturais, não é um material difícil de ser trabalhado. Os dois profissionais ressaltam, no entanto, a necessidade de impermeabiliza-lo sempre – esse tipo de travertino tem a seu favor o fato de ser delicado e fácil de se usar na decoração. Flávio e Evaldo consideram que funciona bem em salas, banheiros e em ambientes de área externa.

Apesar disso, o travertino dá um pouco mais de trabalho na manutenção da limpeza. O material precisa ser limpado com cuidado, dizem eles, utilizando shampoo de coco e escova de mão para não ser danificado e com máquina de jato de água, no caso de sujeiras mais pesadas.

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Além disso, tanto Flávio Anselmo quanto Evaldo Ferreira mencionam a necessidade de fazer estucamento, para alguns dos usos do travertino romano. Caso seja usado em pisos de cozinha, em banheiros e bancadas recomenda-se o estucamento de resina importada, procedimento no qual as cavidades da rocha são preenchidas com resina após a impermeabilização, mantendo-a nivelada e lisa. Já no caso de paredes, pode ser feita a aplicação do travertino romano natural.

Bibliografia

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-o-coliseu-de-roma/

HUILLCA, Carlos Alberto Luza. Estudo experimental do comportamento geomecânico do travertino. 2014. 150p. Engenharia Civil – PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2014.

SIDRABA, Inese. New materials for conservation os stone monuments in Latvia.2004. 13p. Química inorgânica – Associazione Villa dell’arte, Torino, 2004.

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