HISTÓRIA DE SUCESSO

A dona do pedaço

Uma história que começou pequenininha e se transformou em referência no setor de design e mobiliário de alto padrão

No apartamento para o qual se mudou recentemente, a empresária Ana Maria Teixeira de Sá mora sozinha. Em um dos ambientes, instalou seu escritório, lugar que sempre preservou em suas moradias, no qual gosta de ler biografias e de fazer anotações daquilo que chama sua atenção nos livros. Viúva e hoje com 82 anos, essa mulher que nasceu em Caratinga mudou-se para Teófilo Otoni com três filhos pequenos e o marido, o fazendeiro Agnaldo de Sá, e posteriormente para Belo Horizonte, onde vive até hoje. A Tom Sobre Tom, marca que criou, é uma das maiores referências no setor de design e mobiliário de alto padrão em Belo Horizonte, reconhecida e reverenciada pelo público e também pelos profissionais da área.

Nélio Rodrigues
Ana Maria Teixeira

Como ela mesma cita: “Os caminhos mais estreitos são os que conduzem a distâncias maiores”. A frase se encaixa com perfeição a uma história em que não faltou dedicação, responsabilidade e força enorme para vencer desafios. O nome Tom Sobre Tom, da loja de 2.000 m² localizada em um dos bairros mais nobres da zona Sul da capital, o Lourdes, vem lá do comecinho, quando Dona Ana, como é carinhosamente chamada, comercializava tapetes arraiolos, fornecidos por uma portuguesa que tinha o mesmo nome que o dela e que morava no município mineiro de Florestal. Além da qualidade, chamava-lhe a atenção o apurado uso das cores em cada peça. “Era uma combinação de tons muito bonita e diferente de tudo o que havia no mercado”, rememora.

Não demorou muito e os vizinhos começaram a se sentir incomodados com o entra e sai de clientes por causa dos arraiolos. “Eles tinham razão, não dava mais para atender em casa”, pondera Dona Ana. Assim surgiu a primeira loja, bem pequena, porém aconchegante, já no bairro de Lourdes e também já batizada com o mesmo nome que perdura até hoje. Aos tapetes agregaram-se os adornos e, depois, o mobiliário. Nada ali era adquirido sem passar pelo crivo estético extremamente exigente da dona, que também não descuidava de ter somente produtos com muita qualidade em seu estoque.

À medida que os negócios prosperavam, o entusiasmo de Dona Ana contagiava também o resto da família, principalmente as filhas. Simone, que à época exercia a profissão de dentista, a princípio ajudava a mãe nos horários livres. Acabou caindo de amores pela atividade e, quando a loja mudou para um espaço maior, ainda não o definitivo, ela decidiu abandonar o consultório e passou a participar de forma integral nos negócios. Em seguida, Fabrícia, a mais nova, ainda cursava o segundo grau à época em que esboçou o desejo de somar-se às duas. Estava formado o time de gestoras da Tom Sobre Tom, uma equipe que seria responsável pelas diretrizes do empreendimento, ainda sob a direção de Dona Ana, que era quem dava a palavra final. Ela compartilhou com as filhas o conhecimento que adquirira em decoração e ampliou o contato delas com os fornecedores e estipulou ainda a mesma retirada para as três. Ao mesmo tempo, exigia das filhas dedicação integral e muita responsabilidade.

Acervo Pessoal
Ana Maria Teixeira, Simone Teixeira, Eduardo Sá e Fabrícia Teixeira

Hoje, se a Tom Sobre Tom está instalada em imóvel próprio, alicerçada em bases sólidas é porque, segundo Dona Ana conta, nenhum passo foi dado antes da hora, ou antes delas saberem exatamente onde poderiam chegar naquele momento. “Foi tudo pensado, preparado. Começamos comprando estoques, caminhões e carros para pequenas entregas e só então adquirimos o lote para construir o nosso espaço. Não adianta montar uma loja sem estrutura”, pondera. Um detalhe marcante dessa trajetória é o fato de tudo ter sido conquistado com investimento fruto do trabalho das mulheres da família. “No trabalho, as pessoas se descobrem para superar os melindres de uma relação funcional, o que favoreceu muito o crescimento de todos, tornando mais fácil a conquista dos objetivos comuns”, ensina Dona Ana que, atualmente, comemora a entrada de mais um familiar nos negócios: o neto Eduardo, de 26 anos, formado em administração.

Uma aptidão que está no sangue

A mulher que nasceu em Caratinga e que, ainda muito nova sonhava em trabalhar na melhor loja da cidade mineira, fazendo embrulhos e atendendo clientes, mas confessa que não chegou a concluir esse desejo em sua cidade natal dada a rigidez do pai, que poderia não concordar na época. Ao mesmo tempo, obtinha da mãe o incentivo de crescer e se aprimorar. “Minha mãe era uma mulher à frente de seu tempo.  Ela sempre me incentivou a trabalhar e dizia, já naquela época, que a mulher tinha que ter independência financeira”, ressalta. Embora já tivesse o exemplo dos tios, pessoas de destaque na área do comércio, Dona Ana formou-se como professora primária. Em Teófilo Otoni, ainda com os filhos pequenos, trabalhou na Delegacia de Ensino e tomou a decisão de mudar-se para Belo Horizonte porque queria ver todos os filhos na universidade. Para a felicidade da matriarca, todos os quatro filhos passaram de primeira no vestibular.

Se na capital o começo não foi fácil, já que o marido, fazendeiro, ficava muito tempo fora cuidando da fazenda, “onde não tinha nem telefone, nem banco e nem correio”, Dona Ana aprendeu a seguir sua própria cartilha e soube desenhar o seu próprio destino. Antes da pandemia do Covid-19, ainda trabalhava normalmente na loja, recebendo clientes com hora marcada. Hoje, a responsabilidade está inteiramente nas mãos das filhas Simone e Fabrícia. “Posso dizer que hoje elas são muito mais do que eu esperava. E, se eu cresci e cheguei no ponto em que estou, é muito por causa delas. Elas sempre vestiram a camisa da loja.  Tem dias que saem tarde da noite de lá”, revela Dona Ana, ela mesma um exemplo dessa atitude, já que se acostumou, desde o início a trabalhar das sete da manhã à meia noite, sem se afastar da dedicação aos filhos. A loja conta hoje com 35 funcionários, muitos antigos da casa, todos com carteira assinada, cesta básica e plano de saúde, a maioria deles, como ela faz questão de ressaltar, com casa própria e carro particular.

Quem pensa que a história da Tom Sobre Tom fica por aqui, mero engano. Além de representar um dos maiores nomes do design brasileiro, o premiado Jader Almeida – que tem suas peças e mobiliário ocupando um amplo andar da loja –  e investir em nomes como Ronald Sasson e, mais recentemente, no do arquiteto e também designer Maurício Bomfim, a empresa se prepara para um novo passo: vai inaugurar, em uma casa bem próxima à que está instalada, um novo empreendimento, totalmente dedicado à marca italiana Natuzzi.

Sollos Divulgação

Poltrona Celine – Jader Almeida

É do ex-presidente da Usiminas, Rinaldo Campos Soares, uma citação que Dona Ana, com muita elegância, se apropriou: “Desafios são motores da alma, eles despertam a criatividade. São eles os catalizadores inerentes a todas as realizações, sejam pessoais ou comerciais. Os desafios nos movem e nos motivam a estar entre aqueles que comercializam o que há de mais moderno para o design de interiores, seja nacional ou internacional”. Se há algo que a empresária Dona Ana Maria Teixeira de Sá sabe bem é romper com desafios e transformá-los em oportunidades.

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