Em Tóquio, 16 grandes nomes da arquitetura e do design transformaram 17 banheiros de Shibuya em espaços que discutem acessibilidade, segurança e qualidade urbana
Banheiro público dificilmente entra na lista das obras que alguém viaja para conhecer. Em Shibuya, um dos distritos mais movimentados de Tóquio, aconteceu exatamente o contrário. Dezessete deles ganharam projetos assinados por alguns dos principais nomes da arquitetura e do design contemporâneos e acabaram entrando, inclusive, no roteiro de quem visita a cidade.
O THE TOKYO TOILET nasceu de uma iniciativa da Nippon Foundation em cooperação com o governo de Shibuya. A proposta era rever um equipamento urbano dos mais comuns a partir de um problema bastante concreto. Mesmo no Japão, país conhecido pela limpeza e pelo cuidado com os espaços coletivos, os banheiros públicos ainda eram associados por muitas pessoas a ambientes escuros, sujos, malcheirosos e pouco seguros.


Para mudar essa percepção, foram convidados 16 arquitetos e designers. A lista ajuda a dimensionar o projeto: Tadao Ando, Kengo Kuma, Toyo Ito, Shigeru Ban, Fumihiko Maki e Sou Fujimoto estão entre os participantes, ao lado de nomes como Marc Newson, Nao Tamura, Kashiwa Sato e Masamichi Katayama.
O programa era o mesmo, mas as respostas foram muito diferentes
No Nabeshima Shoto Park, Kengo Kuma distribuiu cinco pequenas construções entre as árvores, revestidas externamente por ripas de cedro. Os volumes se conectam por um percurso em meio à vegetação e atendem a diferentes necessidades de uso. O banheiro praticamente se incorpora ao parque.


Tadao Ando escolheu outra direção para o Jingu-Dori Park. Seu volume circular, protegido por uma cobertura que avança sobre a construção, permite a circulação do ar e cria uma relação direta entre interior e exterior sem comprometer a privacidade.
Há ainda a delicadeza dos volumes de Fumihiko Maki no Ebisu East Park, a interpretação de Toyo Ito para Yoyogi-Hachiman e a solução de Sou Fujimoto em Nishisando. Em vez de repetir um modelo pela cidade, o projeto transformou cada endereço em uma experiência própria.
Uma das propostas que mais chamou atenção foi a de Shigeru Ban. Em dois parques de Shibuya, o arquiteto utilizou paredes de vidro colorido que, originalmente, permaneciam transparentes enquanto os banheiros estavam vazios. Assim era possível verificar do lado de fora se o espaço estava limpo e se havia alguém em seu interior. Quando a porta era trancada, o vidro tornava-se opaco, garantindo a privacidade do usuário.

A tecnologia acabou apresentando problemas em determinadas condições de temperatura e passou por alterações posteriores, um dado interessante justamente porque mostra o que acontece quando uma solução experimental deixa a prancheta e passa a enfrentar o uso cotidiano da cidade.

E o cotidiano é uma parte importante dessa história
Desde o início, o THE TOKYO TOILET não tratou manutenção e limpeza como questões secundárias. Os espaços receberam rotinas específicas de conservação e inspeção. Em determinado período do projeto, as instalações eram limpas duas ou três vezes ao dia e avaliadas também por consultores especializados, numa tentativa de garantir que a qualidade prevista pelos arquitetos permanecesse depois da inauguração.

A atenção à manutenção tem relação com o omotenashi, conceito japonês de hospitalidade baseado no cuidado com o outro. Nesse caso, ele aparece numa situação das mais corriqueiras: deixar o espaço em boas condições também para quem vai utilizá-lo depois.
Dos parques de Shibuya para o cinema
Quem assistiu a Perfect Days talvez já conheça boa parte desses projetos sem saber.
Dirigido por Wim Wenders, o filme acompanha Hirayama, funcionário responsável pela limpeza de banheiros públicos em Tóquio. É justamente entre alguns dos projetos do THE TOKYO TOILET que transcorre boa parte de sua rotina.
O que poderia ter se transformado numa vitrine de arquitetura funciona de maneira bem diferente no filme. Os banheiros aparecem sendo usados, limpos, atravessados e incorporados à vida da cidade. São cenário do trabalho diário de Hirayama, entre suas músicas, livros, fotografias e pequenos hábitos.
A relação entre o projeto e o cinema não foi casual. O convite feito a Wenders estava ligado ao próprio THE TOKYO TOILET e acabou dando origem ao longa, que levou a iniciativa de Shibuya para uma audiência internacional.



Os 17 banheiros foram concluídos em 2023 e, desde abril de 2024, o projeto está sob responsabilidade do governo de Shibuya.
Vistos em conjunto, eles formam uma espécie de roteiro de arquitetura contemporânea a céu aberto. Mas talvez o aspecto mais interessante esteja na escolha do objeto: não se tratava de construir um museu, um centro cultural ou outro equipamento destinado naturalmente a receber arquitetura de destaque. Tratava-se de melhorar banheiros públicos.
E isso diz bastante sobre a cidade que se pretende construir.
Porque boa arquitetura também pode começar por aquilo que ninguém costuma olhar.
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