Na 29ª edição, projetos premiados revelam uma arquitetura mais interessada em território, natureza, bem-estar e nas relações que acontecem dentro dos espaços
Assessoria de Comunicação
Para entender para onde a arquitetura brasileira está caminhando, vale olhar para aquilo que está sendo premiado. Na 29ª edição do Prêmio Deca, realizada em agosto, projetos de diferentes escalas e propostas mostram uma produção que amplia o olhar sobre o espaço: a casa deixa de ser apenas abrigo, a paisagem passa a participar da experiência e a sustentabilidade aparece cada vez mais ligada ao modo de construir e ocupar os territórios.

SUSTENTABILIDADE QUE COMEÇA ANTES DA OBRA
A grande novidade desta edição foi a criação da categoria Destaque da Arquitetura Sustentável. O reconhecimento ficou com a Rosenbaum Arquitetura, pela trajetória de projetos que aproximam identidade brasileira, saberes tradicionais e responsabilidade ambiental.
Entre os trabalhos apresentados está o projeto das Moradas Infantis Canuanã, em Formoso do Araguaia (TO). A proposta transformou antigos dormitórios da Escola Fazenda Canuanã em espaços que remetem à escala de uma casa, construídos a partir da escuta de estudantes e educadores e do entendimento das características do território.

A madeira laminada colada, os tijolos de solo-cimento produzidos com terra da própria fazenda, as estratégias de conforto térmico e o sistema de drenagem, pensado para respeitar o ciclo de cheias do rio Javaés, mostram que sustentabilidade, nesse caso, não aparece como um recurso aplicado ao projeto depois de pronto. Está na própria maneira de pensar a arquitetura.
Como resume Marcelo Rosenbaum, sustentabilidade envolve escolhas técnicas, mas também respeito pelos territórios, pelos conhecimentos e pelas pessoas que vivem neles.
QUANDO A PAISAGEM ENTRA EM CASA
Em outros projetos premiados, a relação com o entorno aparece de maneira mais direta. Na Casa Veredas Simonetto, de Gabriel Fernandes, do GF Estúdio 55, madeira, fibras naturais, vegetação e tons terrosos aproximam o interior de uma atmosfera mais orgânica. A estrutura modular também ganha presença nas paredes e no teto, reforçando a sensação de continuidade.

No Apê Tamarindo, de Camila Stump e Nabila Sukrieh, do Estúdio Minke, a cozinha se abre para o paisagismo e para a área externa. Concreto aparente, instalações expostas, revestimentos preservados e madeira compõem um ambiente em que a arquitetura não tenta esconder suas próprias marcas.
É aí que a arquitetura contemporânea ganha outra dimensão: o ambiente não termina naquilo que foi desenhado.
A CASA COMO EXPERIÊNCIA
O bem-estar também aparece de formas diferentes entre os projetos vencedores.
No Ecos Brandos, do Bezerra Panobianco Arquitetura, a inspiração vem da imagem de uma cabana e da ideia da casa como lugar de memória e reconexão. Luz natural, paisagem, materiais contínuos e uma paleta quase monocromática criam uma atmosfera de recolhimento.

Já no Apartamento Arpoador, de João Panaggio, o elemento mais marcante está no banheiro. Uma abertura zenital sobre a banheira permite que o céu participe do espaço e que a luz natural transforme a experiência ao longo do dia.

São soluções distintas, mas que partem de uma mesma compreensão: o conforto não está apenas nas dimensões ou nos acabamentos. Está também naquilo que o espaço provoca.
MENOS PRESSA, MAIS CONVIVÊNCIA
A Cozinha Alento, de Max Frischmann e Caroline Manzotti, do Frischmann Manzotti Arquitetos, parte de uma ideia simples: criar uma pausa em meio ao ritmo da cidade.

Madeira, estrutura marcada no teto, elementos perfurados e uma bancada suspensa organizam o ambiente sem separar as funções. Os materiais e produtos de Deca, Portinari e Duratex entram nessa composição de maneira integrada, reforçando a ideia de uma cozinha pensada para estar, e não apenas para funcionar.
O TERRITÓRIO NÃO É CENÁRIO
Na Casa Catimbau, de André Moraes e Carolina Mapurunga, do Azul Pitanga, a relação com o território é ainda mais evidente.

O projeto utiliza princípios de bioconstrução e materiais de baixo impacto, com paredes de taipa de pilão, volumes fragmentados, coberturas leves e estratégias conscientes para o uso da água. Mais do que reproduzir uma estética regional, a arquitetura parte da cultura e das características do lugar.
“A arquitetura atua como mediadora para coexistir com o território, sem tentar domesticá-lo”, definem os arquitetos.
UMA NOVA GERAÇÃO JÁ ESTÁ PENSANDO ASSIM
Entre os estudantes premiados, as propostas também apontam para uma arquitetura preocupada com o uso dos recursos e com novas formas de relação entre espaço e cotidiano.
No Pure Drop, de André Ricardo de Oliveira, um sistema de pia capta, filtra e armazena a água utilizada para abastecer a caixa do vaso sanitário. A lógica é simples e direta: reaproveitar o que já foi usado.

Na Sala de Banho Semente, de Gabriel Peres, a referência à semente aparece na composição do espaço, com elementos vazados, materiais naturais e o trabalho da luz criando diferentes desenhos ao longo do ambiente.

Já a Cozinha Nexus, de Luanda Leite, propõe a cozinha como ponto de encontro entre pessoas, natureza e arquitetura, com aberturas para a paisagem e integração entre cozinha, jantar e estar.

O QUE FICA DESTA EDIÇÃO
Mais do que reunir projetos premiados, o Prêmio Deca 2026 ajuda a revelar algumas das questões que estão movimentando a arquitetura brasileira hoje.
Território, natureza, conforto, convivência, reaproveitamento de recursos e identidade aparecem de maneiras diferentes, mas com uma característica em comum: a arquitetura parece cada vez menos interessada em existir isoladamente.
Ela se relaciona com o lugar, com quem vive o espaço e com aquilo que acontece ao redor. É dessa combinação que parece surgir uma arquitetura mais afinada com o nosso tempo.

