O Mundo e EU – A casa e nossas verdades

Claudia Jannotti
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 O MUNDO E EU

A casa apresenta, a princípio, nosso direito e necessidade de privacidade. E, claramente, também reflete nosso passado e nossos medos. Representamos através desta inocente construção algo poderoso, como nossos sonhos, as mudanças à medida que a vida se torna mais íntima e social ou ao contrário, publica e solitária. Os móveis e os perfumes que permeiam os ambientes mudam, sem esquecermos das cores das paredes e trancas nas portas.

A relação do indivíduo com a casa está se tornando uma extensão de sentimentos, mas principalmente de princípios, como a nossa noção de identidade e proteção ao comum, ao País e até mesmo ao planeta. Em tempos pandêmicos, muitos sentimentos e atitudes mudaram nossa filosofia com nossas casas. Se tornou uma relação mais particularizada, ouso a dizer até mesmo uma metamorfose em que lares são templos ou parlamentos.

Se formos trazer para o universo da psicanálise, um terapeuta talvez diria que os audaciosos mudam sempre, os românticos ou que amam poesia trará flores, objetos que acione sentimentos ou lembranças, e os diplomáticos talvez uma casa minimalista, neutra, e claro intimidadora. Mas não podemos esquecer do quanto precisamos de um cenário quando somos parte de instantes múltiplos em um mundo rápido e virtual, somos analisados o tempo todo.

E, para arrematar tudo, alguns sentimentos que guardamos no íntimo buscam por habitar o coração do outro. Aí tudo fica muito mais complicado. Certamente a sua casa pode ser o abraço de um pai, o beijo de um amor, o frescor de uma cachoeira, os pés sentindo o calor da terra, as cores das paredes de seu quarto, simplesmente algo que nos traga paz, segurança, ou que desperte em nós, algo poderoso e pessoal.

A Casa da família Real: a exuberante Quinta da Boa Vista

Elias Antônio Lopes enriqueceu com o tráfico de escravos. Era um político luso-brasileiro por volta de 1770-1815. Em 1803 construiu um verdadeiro palacete sobre uma colina na Cidade do Rio de Janeiro. Em 1804, o local foi escolhido primeiro por estar protegido entre árvores e mata atlântica, segundo pelo espetáculo oferecido pela natureza todos os dias. O nascer e o pôr do sol sobre a Baía Guanabara inspirou o nome Quinta da Boa Vista

A história da Quinta da Boa Vista do Rio de Janeiro começa entre os séculos XVI e XVII. Neste período era uma fazenda de Jesuítas, mas com a expulsão da ordem a área passou a ser de propriedade privada. Para nossa sorte hoje o Brasil tem um local encantador.

Em 1808, Elias Antônio Lopes presenteou Dom João VI, na sua chegada ao Brasil, com o palácio chamado oficialmente de Quinta da Boa Vista, transformando-se na residência oficial do monarca. No mesmo ano, foi agraciado comendador da Ordem Militar de Cristo e nomeado tabelião e escrivão da Vila de Parati.

A arquitetura colonial brasileira começou especificamente em 1530, com a criação das Capitanias Hereditárias.

Se refletimos bem, habitar é uma construção de sentimentos, o poder do dinheiro, a cobiça, e o toque do gosto pessoal, e tudo influencia um processo difícil: a arte do morar; e possuímos nossas casas no interior, e as armadilhas comandadas por nosso inconsciente, com certeza, a voz violenta do ego, eu diria que as reformas da Quinta da Boa Vista foram significativas e refletem exatamente isto.

Tratando-se de um casarão enorme e querendo a Família Real fazer uma reforma para instalar-se de vez, seria necessário adaptações, tecidos e tapeçaria, essa foi só a primeira de várias intervenções na residência ao longo dos anos. A mais importante iniciou-se na época da lua de mel do Príncipe D. Pedro com Maria Leopoldina, e se estendeu até 1821.

A casa ou melhor, no Palacete que foi tomando forma, mesas lindas, prataria, louças delicadamente escolhidas, todos objetos e artefatos que fazem parte da arte do receber, mas também do comportamento da nobreza e seus caprichos.

As intervenções eram na arquitetura, mas também no mobiliário e nos tecidos, que devido ao calor e humidade sofriam avarias.

O palácio, tanto por sua composição volumétrica e formal, quanto pelas características de seus elementos arquitetônicos e decorativos, apresenta uma linguagem classicista, tais como o frontão triangular, os frisos que marcam os pavimentos e a sobreposição das colunas com capiteis dóricos e jônicos, e revelam em seus detalhes, o gosto pelas feições (neo)clássicas do século XIX.

Curiosidade sobre a criação do Zoológico da Quinta da Boa Vista: o Barão de Drummond devido a dificuldades financeiras para manter o local em funcionamento criou o controverso jogo do bicho, esquema de aposta ilegal no Brasil.

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O encarregado dessa reforma na Quinta da Boa Vista foi o arquiteto inglês John Johnston. Além da reforma do paço, ele instalou um portão monumental e imponente na entrada, presente de casamento do general Hugh Percy, 2º Duque de Northumberland.

Após a independência do Brasil, em 1822, a Quinta da Boa Vista passou por outra reforma significativa e trouxe mais requinte neoclássico. O projeto do Paço Imperial foi do arquiteto português Manuel da Costa (1822-1826), que posteriormente foi substituído pelo francês Pedro José Pézerát (1826-1831), creditado como autor do projeto do estilo neoclássico da Quinta da Boa Vista.

No dia 2 de setembro de 2018, houve um grande incêndio no Museu da Quinta da Boa Vista que destruiu uma parte do acervo da instituição que abrigava um vasto acervo com mais de 20 milhões de itens, englobando alguns dos mais relevantes registros da memória brasileira no campo das ciências naturais e antropológicas, além da cobertura e várias salas de exposições.

Vergonha para todos brasileiros, não seria apenas um dos cortes no orçamento. Desde 2014 que o museu não vinha recebendo a verba de 520 mil reais anuais necessários à sua manutenção, descaso às necessidades e cuidados para prevenir um acidente deste porte. Mas se moramos na casa chamada Brasil, em que cômodo da casa da história o respeito por nossa Pátria está escondido? Será que a memória e os moldes do que chamamos de memória se perderam?

Trata-se da instituição científica mais antiga do Brasil e um dos maiores museus de história natural e de antropologia das Américas. A instituição, tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) foi a residência da família Imperial Brasileira entre 1822 a 1889.

Além do repasse de verba do governo e da ajuda internacional, o museu também está recebendo a doação de pessoas interessadas em sua restauração. Para saber mais sobre como ajudar o Museu da Quinta da Boa Vista, é só acessar a página oficial do museu, no link “Como ajudar”.

O jardim, a casa e as cores de Claude Monet

Claude Monet era classificado de arrojado. Nasceu em Paris ano 1840. Seus amigos diziam que era um homem de múltiplos talentos, amante da vida e apaixonado pela arte do habitar, horticultor, amou a sua casa, local que despertou para as luzes outonais, o frescor do inverno. Falaria sobre a beleza do instante e representou magnificamente a água e as flores.

Principalmente, permitiu que sua moradia imortalizasse sua pintura: um jardim, um dos mais celebres da história da arte, O Jardim de Giverny, o fabuloso Claude Oscar Monet, libertou-nos de critérios ultrapassados. No que se diz respeito a interpretação da forma, o impressionismo mudaria tudo.   

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A liberdade de sentir a luz do sol, reinterpretar o instante e principalmente registrá-lo. Mas este homem brilhante pintou retratos de família e várias paisagens. Estaria ele descobrindo que podemos pertencer a vários instantes e possuirmos várias casas ao longo de nossas vidas, até nos apaixonarmos por ela.

Claude Monet dizia que escapar da Desgraça de Poissy era sobreviver. Um lugar que ele detestava, afinal, sua casa à beira do Rio Sienna inundava sempre as águas subiam. Daí ele se refugiava na Costa da Normandia. Ele sempre se adaptava. Pessoas dispostas a mudanças, aceitam a felicidade sem drama. Monet morou em Argentuil, Vétheuil, Poissy e aos 42 anos, em 1883, mudou para Giverny, seu porto seguro, sua casa da alma.

Este homem encantador adorava os jantares com seus amigos, em sua salle à manger jaune, a sala de jantar amarela, Renoir, Helelu, Cazin, os escritores Mallarmé e Bergerat diretor de La Vie Moderne. Falava-se sobre pintura evidentemente, mas há relatos que assuntos de jardinagem estavam sempre presentes. Caillebotte e Mirbeau eram apaixonados por horticultura. Estar em uma mesa entre amigos é algo poderoso e poético, é compartilhar e dividir opiniões e multiplicar generosidade. Não se trata de comer ou beber, é sobre comungar. E a mesa, objeto icônico em uma casa, neste momento é a própria casa. Não interessa os outros cômodos, se luxuosos ou de camponês, de madeira ou pedra, a mesa é o centro.

Em 1890, a jardinagem ocupou lugar especial na vida de Monet. Em especial o jardim aquático, que ele ganhou de seu amigo, o marchand e colecionador japonês Hayashi. Com ele Monet trocava quadros por estampas, e foi Hayashi que presenteou Monet com espécies exóticas raras, as Ninféias. Daí o pintor criou um lago inspirado nas ilustrações de Hokusai, com a ponte japonesa, que inspirou uma serie que levaria trinta anos para ser executada e revelou a abstração desenvolvida em sua obra.

‘’Com o passar do tempo, abri meus olhos e, então compreendi verdadeiramente a natureza, aprendi a amá-la‘’ (Claude Monet)

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As Ninféias seriam o centro de sua alma, a nova casa de Monet que gastou 12 anos de sua vida para as composições de Ninféias. Cinco meses após a morte do pintor, oito composições, somando 22 enormes painéis sobre Ninféias, passaram a decorar dois salões ovais de Orangerie, no Jardim das Tulherias, em Paris, escandalosamente lindo e perfeito.

‘’ O que se imagina é uma sala circular, cujas paredes de cima a baixo estariam recobertas por água salpicada (…) paredes de transparência ora verde ora malva, a calma e o silêncio da água parada refletindo florescências abertas; os tons são vagos, delicados como um sonho’’ (Entrevista de Monet a Louis Guillemot, 1897)

Monet, o mago das cores, antes de começar a pintar, já havia selecionado 35 tons. Em seu enterro, o amigo Clemenceau lhe rendeu uma última homenagem: pediu que retirassem o pano negro que cobriria o caixão e o substituiu por um tecido claro, enquanto declarava ‘’Nada negro para Monet”. Ele morreu em 1926, aos 86 anos.

Hoje as cores e o mágico momento das Ninféias se encontram na Sala circular do Musée de L’Orangerie, em Paris, em onde estão expostas.

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A grande dama Clarice Lispector e sua casa

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Clarice Lispector nasceu em dez de dezembro de 1920 em Tchetchelnik, na Ucrânia, quando a família parte da Rússia em direção à América, fugindo das violentas perseguições aos descendentes de judeus. Seus pais Pinkhas Lispector e Mania Krimgold Lispector, passaram os primeiros momentos de vida de Clarice fugindo da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa (1918-1920). Em dezembro de 2020, seria o centenário da escritora. 

Autora de várias obras inovadoras e plurissignificativas, desde pequena, Clarice estudou várias línguas (português, francês, hebraico, inglês, iídiche) e teve aulas de piano. Era boa aluna na escola e gostava de escrever poemas. Lispector pública, em 1943, seu primeiro romance intitulado Perto do coração selvagem, dando início a sua carreira como escritora, e impressionando a crítica. A autora ganhou diversos prêmios, além de um lugar de destaque no mundo literário. Dentre sua vasta produção literária, suas obras Laços de família (1960) e Onde estivestes de noite (1974), e dessas obras o conto Preciosidade, a qual apresentarei como A CASA de muitas meninas.  

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“Ela os ouvia e surpreendia-se com a própria coragem em continuar. Mas não era coragem. Era o dom. E a grande vocação para um destino” (Clarice Lispector)

No conto Preciosidade encontramos essa frase. Ao longo da história, a protagonista enfrenta grandes desafios interiores e, apesar do medo, resolve seguir em frente. A coragem estaria ligada ao dom de não desistir e ir ao encontro ao destino e de mudanças. Uma menina com medo de ser notada na sociedade, de virar mulher… Neste conto seria também uma mudança da casa da inocência para a casa das vaidades, do mundo das mulheres, uma vez que era apresentada no conto como uma menina feia. Mas na sala de aula que era respeitada por ser inteligente, dentro da sala de aula ‘era tratada como rapaz’. Clarice possui em sua obra uma força introspectiva e permite uma multiplicidade, uma vastidão interpretativa.

Ironicamente, enquanto a Europa zela cuidadosamente pela casa de Claude Monet, um casarão localizado no bairro da Boa Vista completamente abandonado, seria apenas mais uma entre tantas edificações em ruínas da área central do Recife. Mas nesta casa morou uma das mulheres mais influentes da literatura brasileira. Foi o primeiro endereço de Clarice Lispector e de sua família na Capital pernambucana. Clarice faleceu 9 de dezembro de 1966, no Rio de Janeiro.

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A cultura e a arte deveriam ser acompanhadas com mais cuidado por nós, comungarmos do mesmo orgulho por esta mulher que tanto representa a literatura nacional no cenário da literatura internacional. A não possibilidade de recuperar o casarão e transformá-lo em um centro Cultural é parte do problema de consciência e principalmente noção de identidade.

‘’Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.’’

Clarice Lispector