ROTEIRO DE ARQUITETURA 

Segredos de Milão

Milão é uma cidade que cativa aos poucos, em ritmo desacelerado. Normalmente o seu nome é imediatamente associado à ideia de elegância e de sofisticação, densamente sedimentadas em uma história bastante rica, moldada por sucessivas trocas e dominações a que a cidade foi submetida ao longo dos séculos. Ao primeiro contato, entretanto, é comum afrontar uma certa frieza e severidade, a começar por suas fachadas, algumas austeras e cinzentas, às vezes pomposas, e outras aparentemente desprovidas de encanto. Observando com mais cuidado, porém, em direção a essa mesma severidade, desabrocham os segredos que tornam essa cidade marcadamente cinza e poluída em um ambiente surpreendente e encantador.

Para falar sobre os segredos de Milão eu evidenciaria três aspectos que interferiram no meu apreço crescente pela cidade: a diversidade, beleza e vivacidade dos pátios internos (i cortili), a exuberância verde dos balcões nas fachadas e terraços que coroam os edifícios (i giardini pensili), além das incríveis surpresas oferecidas pelos interessantes edifícios tutelados pelo FAI (Fondo Ambiente Italiano), abertos à visitação.

Pátios

Vistos en passant através de grades ou portões entreabertos e visitados frequentemente por turistas em ocasião das Fashion Weeks e da Design Week, os pátios milaneses contam muito mais sobre a cidade do que as fachadas externas para as ruas. Longe dos dias frenéticos dedicados à moda e ao design, Milão pode até parecer calma, mas na realidade não para nunca! A oferta cultural da cidade é bastante variada, para todos os gostos e bolsos, e distribuída ao longo de todo o ano.

Muitas dessas atividades, mesmo públicas, ocorrem freqüentemente fora do alcance dos olhos, ao menos aparentemente, porque escondidas no interior da infinidade de pátios em seus edifícios residenciais, de uso misto, institucionais, culturais e religiosos. Milão é uma cidade mestre em criar oportunidades para promover encontros, que acontecem em lugares os mais inusitados possíveis. Os pátios contam uma parte importante dessa história, hospedando uma parcela significativa de eventos. Apesar de toda essa badalação, trata-se de uma cidade marcada pela discrição e sobriedade. De fato, uma característica claramente milanesa foi aquela de tornar bela e acolhedora a parte interna das casas de família, enquanto a fachada externa possuía um caráter mais austero.

A riqueza e a variedade das fachadas dos pátios internos testemunham diversos estilos arquitetônicos, destacando-se desde magníficos espaços renascentistas, rococó, liberty, até os mais populares pátios das casas di ringhiera, conformados por galerias abertas com parapeitos em ferro ou madeira.

Além das fachadas internas, ricas em detalhes arquitetônicos, os pavimentos, com seus desenhos e materiais, as fontes, as estátuas, os afrescos e os jardins são um espetáculo à parte. O chamado “Quadrilátero da Moda” reúne em prédios históricos uma parte desses pátios sofisticados e de uma beleza ímpar, mas a tipologia do pátio se espalha por toda a cidade, assumindo feições diversas que testemunham as influências recebidas.

Como exemplo de algumas dessas preciosidades, poderia citar os pátios da Accademia de Belle Arti di Brera, da Casa Rossi (pátio octogonal, em corso Magenta), da Casa Ortelli, do Palácio Bonacossa (Sede do Museu de Arte e Ciência, com influência do renascimento florentino), dos seguintes palácios: dell’Ambrosiana, Luraschi, Bolagnos Visconti, Durini, Landriani (situado atrás da Accademia di Brera), do atelier de tecidos italianos C&C (com vista para a vinha de Leonardo da Vinci na Casa degli Atellani), do claustro da Igreja Santa Maria degli Angeli, da loja de bicicletas Rossignoli (coberto por flores de glicínia, em corso Garibaldi) e o Cortile degli Artisti (casas populares di ringhiera no quartiere dei Navigli, bairro dos canais).

Outros edifícios milaneses sobre os quais valeria à pena dar uma olhada para além dos portões: Palácio Recalcati Prinetti (cujo pórtico do pátio interno segue rigorosamente os cânones de Bramante, do sec. XVI, além da existência de um pequeno balcão original em estilo barroco sobre o portal de acesso), Palácio Annoni (um dos poucos construídos na primeira metade do séc. XVII, nos anos em que a pandemia de peste bubônica atingiu Milão), Palácio Acerbi (Casa del Diavolo, restaurado no início do sec. XVII em estilo barroco lombardo), belíssimo pátio com fonte em corso Itália n. 8, outro em via Bigli n. 10 (pátio com afrescos renascentistas e coroado por um misto de “terraços-galerias” escalonados), na entrada do Palácio Vidiserti (pátio com palmeiras), Palácio Morando Bolognini (atualmente Museu de Moda e Figurino, com colunata enriquecida por abóbadas e estátuas).

Nessa vasta constelação milanesa, seguem outros exemplos de edifícios cujos pátios se revelam como ambientes inesperados: Palácio Borromeo d’Adda (com colunata cercada por trepadeiras, em via Manzoni), Palácio Trivulzio (construído em época medieval, passou por significativas mudanças no séc. XVIII, mas possui ainda hoje um pátio tranqüilo que remonta a outros tempos), claustro dos humilhados do antigo Mosteiro de Santa Maria Maddalena al Cerchio (atualmente um dos lugares mais evocativos e secretos da cidade, escondido como uma preciosidade no prédio da Casa Ucelli di Nemi), 10 Corso Como (loja-conceito com um pátio aconchegante e pleno de verde) e o pátio bastante incomum de uma vila operária milanesa em via Lincoln.

Algumas dessas áreas citadas costumam ser fechadas ao público e visíveis apenas em ocasiões especiais, como por exemplo durante os eventos Cortili Aperti (promovidos pela ADSI – L’Associazione Dimore Storiche Italiane), Fuorisalone, que ocorre na semana do Salão do Móvel de Milão, ou nas Jornadas de Primavera e Outono promovidas pelo FAI. A maioria, entretanto, é acessível à visitação ao longo de todo o ano.

Terraços e balcões verdes

A começar pela cobertura da catedral de Milão (o Duomo), constituída por um conjunto de terraços conectados, e sendo uma das visitas obrigatórias para quem deseja ter um panorama da cidade, os terraços milaneses se destacam principalmente pela variedade em termos de dimensão, acesso, atividades e paisagismo. Vários deles são acessíveis ao público, seja mediante pagamento ou frequentando estabelecimentos comerciais, bares, restaurantes ou espaços culturais que os possuem. Diversos outros são condominais e de acesso restrito aos condôminos, onde frequentemente, além de uma área comum, encontram-se também os sótãos (solai – pequenos compartimentos privados que funcionam como depósito) destinados a cada apartamento. Há também muitos terraços de uso exclusivo a determinados proprietários (semelhante ao que ocorre com os apartamentos de cobertura no Brasil). É bom lembrar que Milão possui muitos edifícios de uso misto, e esse acesso público ou semi-público aos terraços (como também aos pátios) é um dos seus aspectos mais fascinantes.

Terraços conectados do Duomo - desníveis (Foto: CarmenMurillo/iStock)

Contrariamente à imagem cinzenta da cidade, uma das características mais surpreendentes de Milão é a presença da vegetação pulverizada por todo o seu território, seja em espaços públicos como pequenas praças e áreas de recreação, jardins urbanos e parques, seja em espaços privados ou semi-públicos, como pátios, balcões e terraços nas coberturas dos prédios.

Os jardins suspensos (giardini pensili) presentes em terraços e balcões são abundantes e bem mais freqüentes do que se possa perceber caminhando pelas ruas. É também notável e bastante inspiradora a dedicação dos milaneses (i meneghini, os habitantes ou nativos de Milão) ao cultivo e manutenção de jardins e até mesmo de pequenas hortas. Durante a fase de lockdown da atual pandemia de Covid-19 os terraços e balcões verdes em Milão desempenharam um importante papel para atenuar a ausência de contato das pessoas com o verde nos espaços públicos mais amplos.

Terraços e balcões verdes nos remontam aos Jardins Suspensos da Babilônia, uma das sete maravilhas do mundo antigo, e também aos terraços-jardim do Movimento Moderno, um dos cinco pontos da nova arquitetura defendidos por Le Corbusier. Embora ambos façam parte do nosso imaginário coletivo, é provável que os terraços e balcões verdes milaneses sejam herdeiros mais diretos de uma tradição italiana que passa pelas coberturas vegetais das tumbas etruscas, pelos terraços das casas romanas, além de influências dos terraços combinados aos jardins (espaços secretos no Renascimento, presentes por exemplo em Pienza, Urbino e Roma), e dos jardins suspensos do Barroco, como atestam o arranjo de Isola Bella no Lago Maggiore e os jardins da Villa Garzoni em Collodi.

“No Renascimento, o tipo foi adotado combinando-o com o do hortus conclusus (hortus), o jardim murado, que amplia o senso de espaço “secreto” reservado a poucos: o jardim suspenso do Palazzo Piccolomini em Pienza e o do Palazzo Ducale de Urbino oferecem vistas calculadas da paisagem, abrindo apenas em pequenas aberturas, enquanto o viridarium do Palazzetto Venezia em Roma, recortado no coração da cidade, era diretamente acessível a partir dos aposentos do Papa Paulo II”[1].

Atualmente, o jardim suspenso segue como um objeto de interesse no design de edifícios compatíveis com o meio ambiente, onde o “telhado verde” (tetto verde ou tetto giardino) contribui para o conforto, regulando a troca de umidade e calor com o exterior. Um dos exemplos contemporâneos mais emblemáticos em Milão é o edifício “Bosque Vertical”, projetado por Stefano Boeri, e localizado em um dos contextos da cidade que mais vem sofrendo alterações na última década. Outros exemplos dessa categoria são a horta – jardim projetada pelo estúdio de arquitetura Piuarch no terraço de cobertura do próprio escritório, em via Palermo, gerando uma espécie de pátio em relação aos edifícios circundantes, ou ainda o complexo residencial com terraços escalonados, projetado nos anos 60 pelo escritório BBPR, ambos localizados no charmoso bairro de Brera, no centro histórico. Há diversos outros exemplos, inclusive anônimos, e que certamente contribuem para conferir uma atmosfera mais acolhedora à cidade, ajudando a reconfigurar também o seu skyline.

[1] “Nel Rinascimento il tipo viene ripreso coniugandolo con quello dell’hortus conclusus (hortus), il giardino cinto da mura, che amplifica il senso di spazio “segreto” riservato a pochi eletti: il giardino pensile di Palazzo Piccolomini a Pienza e quello nel Palazzo Ducale di Urbino offrono calcolate visuali sul paesaggio schiudendosi solo in piccole aperture, mentre il viridarium del Palazzetto Venezia a Roma, ritagliato nel cuore della città, era raggiungibile direttamente dalle stanze del pontefice Paolo II.”

ROMANA LISERRE, Francesca. “Giardino Pensile” in Teknoring: il portale delle professioni tecniche [online], 26 marzo 2010. Disponível na internet: https://www.teknoring.com/wikitecnica/storia/giardino-pensile/ (acesso em 29/07/2020) (tradução livre da autora para o português).

Edifícios tutelados pelo FAI

Entre a infinidade de edifícios que se encontram sob tutela da Fundação FAI – Fondo Ambiente Italiano, destaco a Casa-museu Villa Necki Campiglio. Casas-museu são habitações transformadas em museus, conservando parte do mobiliário, acervo artístico e objetos de uso da época em que eram habitadas. Atualmente existem quatro em Milão: Villa Necki Campiglio, Boschi Di Stefano, Museu Poldi Pezzoli, e Museu Bagatti Valsecchi (localizado no coração do “Quadrilárero da Moda”, trata-se de outra pérola a ser visitada, seja pelo acervo artístico, seja pela atmosfera dos interiores e do pátio neo-renascentistas).

Casa-museu Villa Necki Campiglio (Foto: Isa Tibúrcio)

A Villa Necki Campiglio, projetada nos anos 30 pelo arquiteto Piero Portaluppi, destaca-se pelo acervo artístico, pelo belíssimo jardim e por ser uma representante do racionalismo italiano, com elementos art decò. Além de ser a primeira casa com piscina e quadra de tênis da cidade, símbolo de pujança da alta burguesia industrial lombarda do séc. XX, a casa revela uma série de novidades arquitetônicas bastante engenhosas para a época.

Casa-museu Villa Necki Campiglio – detalhes do jardim com piscina e quadra de tênis, escada, banho e porta de correr embutida na parede, engenhosidades e outros detalhes (Foto: Isa Tibúrcio)

Através das Jornadas FAI de Primavera e Outono é possível semestralmente realizar visitas guiadas gratuitas por diversos edifícios espalhados por toda a cidade, entre os quais, alguns localizados na zona milanesa conhecida como Porta Veneza, caracterizada pela forte herança do estilo liberty. Como exemplos encontram-se os resquícios do antigo Hotel Diana (originalmente I Bagni di Diana, posteriormente Il Kursaal Diana, e atualmente Sheraton Diana Majestic Hotel), que abrigou no passado a primeira piscina pública da Itália. Nas suas imediações encontram-se a Casa Galimberti, edifício marcado pela maravilhosa fachada em azulejos com imagens e motivos florais em estilo liberty, e o fascinante Albergo Diurno Venezia. Localizado sob a Praça Oberdan, trata-se de um centro de serviços para viajantes e cidadãos, projetado em estilo art decò também pelo arquiteto Piero Portaluppi nos anos 20, e que conserva intacto o mobiliário, os revestimentos e a decoração, atualmente aguardando o restauro, após décadas abandonado.

Uma curiosidade desta mesma zona é a presença ainda hoje da Igreja San Carlo al Lazzaretto, mantida no local em que no passado se encontrava o Lazzareto de Milão, onde se passa parte da trama do célebre romance da literatura italiana “Os Noivos” (I Promessi Sposi), de Alessandro Manzoni, referente ao período da pandemia de peste bubônica que assolou Milão entre 1629 e 1631.

Sendo uma cidade historicamente desenvolvida de forma horizontal, tal dinâmica tem sido alterada mais recentemente com os edifícios do complexo de Citylife e do entorno da Praça Gae Aulenti (Parque Biblioteca degli Alberi e bairros Isola e Porta Nuova) verso à verticalização, seguindo o rastro de alguns dos seus edifícios mais emblemáticos como o Duomo, a Torre Velasca, ou o edifício Pirelli, apelidado de Pirellone. Essa arquitetura vertical acaba catalizando mais a atenção dos turistas, que muitas vezes se esquecem de boa parte da Milão escondida, tema aqui afrontado.

Sobre os segredos dessa cidade que continua a me surpreender cotidianamente, haveria ainda muito a dizer, seja da passagem de Leonardo da Vinci como seu habitante, ou dos ambientes reservados às bibliotecas, seja dos atuais e antigos canais (i navigli), que possuem uma presença decisiva na história da cidade, ou dos arrozais e quintas (le cascine), dos diversos parques, e inclusive do fato de estarem prestes a se tornar um grande cinturão verde nos arredores da cidade. Também seria o caso de mencionar os investimentos milaneses nos últimos anos para a ampliação da malha ciclável da cidade, contribuindo ainda mais nesse processo de descoberta de atmosferas e belezas pouco à vista.

Ao contrário das primeiras impressões criadas sobre a cidade em um dia qualquer cinzento de inverno, os olhares sucessivos, curiosos e persistentes vão enunciando pouco a pouco outras emoções, desde a explosão de cores da primavera que encanta os balcões, os terraços e jardins, passando pelo verão quente, úmido e abafado, depois pelo outono em que tudo se apazigua de novo, e os movimentos que insistem novamente em reivindicar as sensações do primeiro olhar. Ciclos e ciclos de muita vida em constante renovação.

Bibliografia

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Cordani, Roberta. (a cura di). Passeggiate Milanesi / Walking around Milan. Milano: CELIP, 2015.

Cosa fare a Milano. “Cortili Aperti: una manifestazione a cura del Gruppo Giovani ADSI” [online], 27 maggio 2018. Disponível na internet: https://www.cosafareamilano.it/events/cortili-aperti-una-manifestazione-a-cura-del-gruppo-giovani-adsl/ (Acesso em 05/08/2020).

De Felice, Arianna. “Guida ai cortili di Milano, i gioielli nascosti da vedere e fotografare” in Milano Weekend [online], 2018. Disponível na internet:  https://www.milanoweekend.it/articoli/cortili-di-milano-guida/ (Acesso em 27/07/2020).

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___________.”Cinque luoghi sconosciuti di Milano da vedere assolutamente” in Milano Weekend [online], 2018. Disponível na internet:  https://www.milanoweekend.it/articoli/luoghi-sconosciuti-di-milano/ (Acesso em 27/07/2020).

FAI – Fondo Ambiente Italiano. Disponível na internet: https://fondoambiente.it/ (Acesso em 05/08/2020).

Madtrip. “10 angoli verdi nascosti di milano”. Disponível na internet:  https://madtrip.co/gallery/74/10-angoli-verdi-nascosti-di-milano (Acesso em 27/07/2020).

Romana Liserre, Francesca. “Giardino Pensile” in Teknoring: il portale delle professioni tecniche [online], 26 marzo 2010. Disponível na internet: https://www.teknoring.com/wikitecnica/storia/giardino-pensile/ (acesso em 29/07/2020).

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