A CASA ESTÁ VOLTANDO A TER CARA DE CASA
Durante o preview para a imprensa, a ABREU percorreu os ambientes da mostra antes da abertura ao público e encontrou espaços menos preocupados em parecer perfeitos e mais interessados em acolher, contar histórias e revelar histórias e modo de viver
Equipe ABREU

Há algum tempo, a casa perfeita parecia ser aquela em que nada estava fora do lugar. Ambientes impecáveis, superfícies quase intocadas, poucos objetos e uma estética tão controlada que, muitas vezes, era difícil imaginar a vida acontecendo ali.
Na CASACOR Minas 2026, que abre suas portas ao público neste sábado, 15 de agosto, o que encontramos foi diferente.
Durante o preview para a imprensa, a ABREU percorreu a mostra e, à medida que entrávamos em cada ambiente, uma sensação foi ficando cada vez mais clara: a casa está voltando a ter cara de casa. E isso talvez diga mais sobre o momento que estamos vivendo do que simplesmente sobre uma tendência de decoração.
Menos cenário, mais vida

Os ambientes continuam sofisticados, cuidadosamente projetados e cheios de boas soluções. Mas há uma mudança na maneira como essa sofisticação aparece. Em muitos deles, a perfeição parece ter deixado de ser o objetivo.
Há livros, obras de arte, objetos garimpados, peças que poderiam ter vindo de uma viagem ou atravessado gerações. O novo convive com aquilo que parece já ter uma história. Em vez de esconder as marcas do tempo, muitos projetos parecem abrir espaço justamente para elas.

São escolhas que fazem com que os espaços deixem de parecer montados apenas para serem vistos e comecem a sugerir uma vida possível dentro deles. E talvez esteja aí uma das diferenças mais interessantes desta edição.
Uma casa que também se sente
Essa mudança aparece também na materialidade. A madeira está presente, assim como as pedras, fibras naturais, tecidos e peças feitas à mão. Há superfícies menos uniformes, tramas aparentes, volumes, relevos e materiais que convidam ao toque.
A natureza também ganha espaço, mas nem sempre de maneira ensaiada. O verde aparece integrado aos ambientes e ajuda a construir essa sensação de uma casa menos rígida e mais espontânea.
É uma arquitetura que não se limita ao olhar. Há ambientes que despertam vontade de tocar os materiais, sentar, permanecer um pouco mais. E isso muda completamente a experiência.

O conforto vai além do sofá
Talvez uma das palavras que melhor definam o que vimos seja aconchego. Mas não estamos falando apenas daquele conforto construído por um bom sofá, uma poltrona generosa ou uma iluminação mais baixa. O aconchego aparece também naquilo que nos é familiar.
Naquele objeto que parece ter significado para alguém. Na estante que não está perfeitamente organizada. Na obra de arte que poderia ter sido escolhida por uma razão muito particular. Na mistura de peças de épocas diferentes. Em tudo aquilo que faz um ambiente parecer construído ao longo do tempo — e não resolvido de uma única vez.
A casa passa, então, a contar alguma coisa sobre quem vive nela. E isso talvez explique por que tantos desses espaços parecem mais próximos, mesmo quando são extremamente sofisticados.

A beleza das imperfeições
Durante muito tempo, falar em interiores contemporâneos significou também falar em eliminar excessos, esconder interferências e buscar uma espécie de perfeição visual. Agora, as imperfeições parecem começar a encontrar novamente o seu lugar.
Não como descuido, evidentemente, mas como parte daquilo que torna uma casa particular. Uma madeira que mostra seus veios, uma pedra que não se repete, uma peça artesanal que carrega pequenas diferenças, um móvel antigo colocado ao lado de outro contemporâneo. São justamente essas irregularidades que quebram a sensação de cenário e aproximam os ambientes da vida real.

Porque casas de verdade mudam. Acumulam objetos. Recebem coisas novas e mantêm outras antigas. Guardam lembranças.
Afinal, para quem é a casa?
Talvez essa seja a pergunta que permaneça depois de percorrer a CASACOR Minas 2026. Em algum momento, na busca por interiores perfeitos, começamos a projetar casas para serem admiradas mais do que para serem vividas?
O que vimos nesta edição parece apontar para outra direção. Uma casa pode ser sofisticada sem ser impessoal. Pode reunir design, arte e arquitetura sem perder espontaneidade. Pode ser contemporânea e, ao mesmo tempo, guardar objetos antigos, memórias e referências muito particulares. Pode, sobretudo, revelar alguma coisa sobre quem mora ali.

E talvez esteja justamente aí uma das ideias mais interessantes que levamos desta edição da CASACOR Minas: o verdadeiro luxo pode não estar em ter uma casa perfeita, mas em ter uma casa que se parece com a gente.
